LIÇÃO Nº 3 – UMA IGREJA FIEL À PREGAÇÃO DO EVANGELHO

INTRODUÇÃO

-Na sequência do estudo da igreja em Jerusalém, veremos a fidelidade daquela igreja local à ordem de pregar o Evangelho.

-A igreja em Jerusalém cumpriu a Grande Comissão.

I – UMA IGREJA QUE RECEBEU A ORDEM DE PREGAÇÃO DO EVANGELHO

-Jesus apresentou-Se aos discípulos no domingo da ressurreição no cenáculo onde estavam eles reunidos, ocasião em que determinou que eles prosseguissem com a Sua obra salvífica. Disse o Senhor: “Assim como o Pai Me enviou também Eu vos envio a vós” (Jo.20:21).

-Tem-se, neste momento, por parte do Senhor, a abertura do entendimento dos discípulos para que compreendessem as Escrituras que já haviam predito todo o sofrimento do Salvador, mas também para lhes mostrar que, após a Sua ressurreição, em Seu nome, se pregasse o arrependimento e a remissão dos pecados, em todas as nações, começando por Jerusalém e por eles, que agora eram testemunhas de todo o ministério de Nosso Senhor (Lc.24:44-48).

-O Senhor Jesus, então, mostra aos discípulos que deveriam pregar o Evangelho, prosseguindo o que o Pai determinara que o Filho fizesse (Mc.1:14,15; Lc.4:43). A Igreja era constituída como o “corpo de Cristo” (I Co.12:27), a entidade mística que havia de dar seguimento ao realizado pelo Verbo encarnado.

-A pregação do Evangelho, ou seja, o anúncio do arrependimento e remissão dos pecados em nome de Jesus, proclamar que Jesus salva era a tarefa prioritária dos discípulos, para isso haviam sido eles preparados durante o ministério terreno do Senhor.

-Para isto o Senhor Jesus iria edificar a Sua Igreja, como já revelara por ocasião da revelação da Igreja em Cesareia de Filipe (Mt.16:18), devendo os Seus discípulos anunciar a todo o mundo aquilo que lhes havia sido revelado, ou seja, de que Jesus é o Cristo, o Filho do Deus vivo (Mt.16:16,17).

-Esta Igreja, embora fosse uma entidade mística, manifestar-se-ia nos mais diferentes lugares do planeta e o primeiro lugar em que isto se daria seria em Jerusalém. Por isso, a pregação começaria por Jerusalém e se espalharia por todas as nações.

-A igreja em Jerusalém, portanto, já recebia a incumbência de dar início à pregação do Evangelho e de espalhar tal pregação para todas as nações, o que, como veremos ao longo do trimestre, foi negligenciado por parte dela.

-Para que pudessem realizar esta tarefa, por primeiro, Jesus Cristo soprou sobre os discípulos para que recebessem o Espírito Santo (Jo.20:22), pois quem crê em Jesus recebe o Espírito Santo (Jo.7:39), o que até então não havia acontecido porque Jesus não tinha ainda sido glorificado, o que ocorreu precisamente com a Sua ressurreição, ocorrida naquele dia.

-Notemos que a prioridade da pregação do Evangelho é tanta que é o primeiro assunto tratado por Jesus na Sua primeira aparição à Igreja reunida (ainda que, desta vez, não completamente), já que as aparições anteriores haviam sido feitas a indivíduos (como a Maria Madalena) ou a pequenos grupos (como aos dois discípulos que caminhavam para Emaús).

-Nesta determinação de pregação do Evangelho, o Senhor Jesus frisou dois pontos fundamentais: o primeiro é de que se deveria pregar o arrependimento e remissão dos pecados em Seu nome, ou seja, o núcleo, a essência da proclamação era a salvação, que se obteria mediante a fé em Jesus e o arrependimento e remissão dos pecados.

-Esta determinação de Cristo seria retomada na Reforma Protestante, mais precisamente em dois dos princípios norteadores é o “Sola Fide”, ou seja, só a fé e a “Sola Gratia”, somente a graça, graça que é precisamente o Senhor Jesus, que foi dado ao mundo para a salvação da humanidade (Jo.3:16; Tt.2:11).

-O segundo ponto fundamental é que esta pregação se deveria dar com base nas Escrituras, pois são elas que testificam de Jesus e de Sua obra salvífica (Jo.5:39), tanto que Cristo fez questão de abrir o entendimento dos discípulos para a compreensão delas.

-A pregação do Evangelho, portanto, é a pregação de que Jesus salva, de que Jesus é o Salvador e tem por base o texto da Bíblia Sagrada.

Eis porque a Reforma Protestante resgatou o ensino genuíno de Cristo, ao defender o “Solus Christus” (ou seja, só Cristo) e a “Sola Scriptura” (Só as Escrituras). É este o Evangelho autêntico e daí porque sermos conhecidos como “evangélicos”.

-Depois de ter soprado sobre os discípulos, Cristo enfatizou que eles deveriam ser revestidos de poder (Lc.24:49). Era necessária, portanto, uma capacitação para que dessem início a esta obra, assim como o Senhor havia sido capacitado, quando do Seu batismo por João, para a obra que Ele realizou (Lc.4:1).

-Antes de subir aos céus, o Senhor Jesus faz uma nova aparição, onde estava reunida toda a Igreja então existente, mais de quinhentos irmãos (I Co.15:6), ocasião em que reafirma a ordem de pregação do Evangelho a toda a criatura por todo o mundo (Mc.16:15).

-Mais uma vez, o Senhor diz aos discípulos que deveriam ficar em Jerusalém, aguardando ser batizados com o Espírito Santo, o que ocorreria não muito depois daqueles dias (At.1:5), para que fossem testemunhas d’Ele em Jerusalém, Judeia e Samaria e até os confins da terra (At.1:8).

-Sob o impacto destas palavras, o Senhor sobe aos céus e os discípulos, então, obedientemente, vão para o cenáculo, onde aguardam o batismo com o Espírito Santo, o que ocorre no dia de Pentecostes.

II – A PREGAÇÃO DE PEDRO E AS PRIMEIRAS CONVERSÕES

-Na lição anterior, vimos o significado e a razão de ser do batismo com o Espírito Santo, que fez com que aqueles quase cento e vinte crentes deixassem o cenáculo, onde se encontravam orando de portas fechadas, para, em plena festividade em Jerusalém, começarem a falar em outras línguas e a magnificar e louvar o Senhor, sem temer a multidão que se reuniu para ver o que estava a ocorrer.

-Pedro, então, toma a frente dos discípulos e faz uma pregação, explicando aos judeus e prosélitos de todas as partes que ali estavam o que significava aquela circunstância, mostrando-lhes que não era um grupo de embriagados, mas, sim, o cumprimento da promessa divina proferida por Joel, mostrando àquele povo que havia chegado um novo tempo para Israel, o tempo do derramamento do Espírito Santo, o tempo em que a salvação era possível a todos quantos invocassem o nome do Senhor (At.2:14-21).

-Notamos, de pronto, que Pedro mostrou-se plenamente consciente do que a multidão estava a confabular entre si. Muitos estavam admirados por ouvirem os discípulos falarem em suas próprias línguas sobre as grandezas de Deus, enquanto outros achavam que tudo aquilo era embriaguez.

-Pedro inicia sua prédica dirimindo as dúvidas que surgiam, numa prova de que, na pregação do Evangelho, temos de ter um ponto de contato com os ouvintes, temos de saber discernir as agruras, angústias e dúvidas espirituais dos incrédulos, a fim de trazer-lhes uma mensagem relevante, que lhes possa chamar a atenção.

-Vemos, claramente, nos dias hodiernos, que muitos “pregadores” fazem exatamente o contrário. Em vez de se aprimorarem em discutir o que inquieta o povo, o que traz dramas existenciais a uma vida sem sentido, estão a enaltecer e exaltar as ilusões e as mentiras criadas pelo inimigo de nossas almas, buscando ser “simpáticos”, “populares”.

-O resultado é que não há qualquer evangelização, muito menos conversão de almas, mas, tão somente, mais um instante e momento de distração, de engano, dentro da estratégia maligna de cegueira espiritual para que as pessoas não vejam a luz do evangelho da glória de Cristo (II Co.4:4).

-Outro ponto importante na pregação de Pedro é de que, para dirimir a dúvida surgida no meio da multidão, o apóstolo fez uso das Escrituras.

-Mostrava o apóstolo de que havia bem aprendido a lição dada pelo Jesus ressuscitado. Cristo havia mostrado, nas Escrituras, a Sua obra salvífica e a pregação do Evangelho não podia prescindir do uso do texto sagrado. A fidelidade da igreja em Jerusalém a Cristo estava demonstrada pela utilização da Bíblia Sagrada, um exemplo a ser seguido e que, lamentavelmente, já por muitos não é mais observado.

-Certamente que, por estar revestido do poder de Deus, o Espírito Santo teve muito mais liberdade para fazer lembrar a Pedro os escritos de Joel, o que não é de se admirar, pois este é um dos trabalhos do Espírito de Deus (Jo.14:26).

-Não há como pregar o Evangelho sem se fazer uso das Escrituras, que são as testemunhas de Cristo Jesus (Jo.5:39).

-Lamentavelmente, nos dias em que vivemos, aumentam grandemente aqueles que abandonaram a Bíblia Sagrada em seus sermões e passaram a fazer uso de fábulas, de invenções humanas (II Tm.4:3,4) que, no entanto, não têm condição de penetrar a divisão da alma e do espírito e das juntas e medulas, nem tampouco são aptas para discernir os pensamentos e intenções do coração (Hb.4:12). Pregadores, voltemos às Escrituras!

-Após dirimir as dúvidas da multidão, com base nas Escrituras, Pedro passou a tratar do tema de todo bom pregador: Cristo.

-Ao longo do livro de Atos, aprendemos que o assunto a ser tratado pela Igreja é Jesus. Como diz o poeta sacro traduzido/adaptado por Paulo Leivas Macalão, “outro bem não procurarei, outro bem eu não acharei, já em mim, está Jesus, n’Ele só vou confiar. Quem aqui pode me saciar neste mundo enganador? Só Jesus, Jesus, só Jesus, Jesus, Rei meu e fiel Senhor” (refrão do hino 473 da Harpa Cristã).

-Os estudiosos da Bíblia costumam afirmar que a igreja primitiva, a igreja retratada no livro de Atos dos Apóstolos, a começar da igreja em Jerusalém, é caracterizada pela presença dos “três K”: “Kristos” (a mensagem é Jesus), “kerigma” (a proclamação da Palavra, pregam com base nas Escrituras) e “koinonia” (a comunhão).

-A igreja autêntica e genuína continua tendo estas mesmas características, pois ela é o corpo de Cristo (I Co.12:27) e Jesus é o mesmo, ontem, hoje e eternamente (Hb.13:8).

-Pedro apresenta Jesus como “o varão aprovado por Deus entre vós com maravilhas, prodígios e sinais que Deus por ele fez no meio de vós, como vós mesmo sabeis” (At.2:22), mas também aquele do qual disse Davi, “sempre via diante de mim o Senhor, porque está à minha direita, para que eu não seja comovido” (At.2:25).

-Vemos, pois, claramente, que, em sua pregação, Pedro apresenta Jesus em Sua dupla natureza, de homem e de Deus.

-Aqui vemos como se estava num novo patamar de conhecimento das Escrituras por parte dos discípulos. Pedro vai se utilizar de um texto de que o próprio Jesus havia inquirido os fariseus sem que eles tivessem encontrado resposta, qual seja, como poderia o Cristo ser filho de Davi e o próprio Davi chamar-Lhe Senhor (Mt.22:41-46; Mc.12:35-37; Lc.20:41-44).

-Os fariseus não haviam podido responder à questão porque não tinham compreendido que o Cristo era Deus e, portanto, existia antes de Davi, mas que, como Deus, havia Se feito carne (Jo.1:14) e, como tal, era descendente de Davi.

-Não há como se pregar o Evangelho se não se reconhecer que Jesus é Deus feito homem e que, como tal, é o único e suficiente Salvador da humanidade, que não há outro nome pelo qual devamos ser salvos (At.4:12).

-Deste modo, não se pode ter genuína pregação do Evangelho sem que se diga que só Jesus salva e que não há a menor possibilidade de coexistência entre a fé em Jesus e qualquer outro credo religioso, como têm defendido atualmente os pregadores do “evangelho ecumênico”, como bem denominou o pastor Ciro Sanches Zibordi, aquele que

“…argumentam que cada pessoa tem seu ponto de vista, e o importante é acreditar em Deus e amar o próximo. Se alguém faz isso já é uma pessoa do bem e não precisa se submeter aos mandamentos contidos nas Escrituras…” (ZIBORDI, Ciro Sanches. Evangelhos que Paulo jamais pregaria. 3. ed. Rio de Janeiro: CPAD, 2007. p.84).

-Este evangelho foi especialmente estimulado pela Igreja Romana durante o pontificado do papa Francisco (1936-2025, Papa de 2013 a 2025), notadamente na chamada Declaração de Abu Dhabi sobre a Fraternidade Humana de 2019 e que nada mais é que uma plataforma baseada no espírito do Anticristo, um prenúncio da religião universal que será capitaneada pelo Falso Profeta (Ap.13:12).

-Pedro ainda enfatiza a morte e ressurreição de Jesus, mostrando, ainda, que tudo o que ocorrera com o Senhor Jesus havia sido previamente profetizado nas Escrituras, afirmando, ainda, que o Senhor estava à destra do Pai e que o Espírito Santo havia sido derramado (At.2:25-33).

-A pregação do Evangelho é a pregação de Cristo e Este crucificado (I Co.2:2). Como diz o poeta sacro traduzido/adaptado por Paulo Leivas Macalão na terceira estrofe do hino 192 da Harpa Cristã: “tema do bom pregador: o Calvário”.

-Jesus havia dito aos discípulos na primeira aparição do cenáculo que, em Seu nome, deveria ser pregado o arrependimento e a remissão dos pecados.

Ora, tal pregação tem como pressuposto o fato de Jesus ter morrido por nós na cruz do Calvário, pagando o preço dos nossos pecados e tornado, assim, possível o perdão que é subsequente ao arrependimento. Só há remissão dos pecados porque Jesus Se fez pecado por nós ao Se oferecer como sacrifício na cruz do Calvário.

-Por isso, aliás, o apóstolo Paulo denominou a pregação do Evangelho de “a palavra da cruz” (I Co.1:18). Não há como pregar o Evangelho sem nos referimos à cruz e à ressurreição, que é a comprovação de que o sacrifício de Jesus foi aceito e é eficaz.

-A fidelidade à pregação do Evangelho exige que preguemos a cruz, que tenhamos como centro de nossa proclamação o Calvário. Como dizia o saudoso pastor Walter Marques de Melo: “não podemos deixar de olhar para o Calvário”.

-Infelizmente, em nossos dias, porém, não são poucos os que não mais pregam “a palavra da cruz”, o que torna a pregação algo vazio e sem sentido, como diz o próprio Paulo, não passam de “sabedoria de palavras” (I Co.1:17), “palavras persuasivas de sabedoria humana” (I Co.2:4).

-O resultado disto é que temos pregações completamente despidas de poder, que não produzem salvação nem transformação de vidas. Só a “palavra da cruz” é o poder de Deus (I Co.1:18), vem acompanhada de demonstração do Espírito e de poder (I Co.2:4).

-Diante desta mensagem, a Bíblia nos relata que os ouvintes tiveram seus corações compungidos, a nos mostrar, claramente, que a nós é tão somente mandado pregar a Palavra de Deus.

-Se pregarmos a Cristo, se usarmos corretamente das Escrituras para mostrar Cristo Jesus, o Espírito Santo atuará levando o povo à conversão.

-Muitos, na atualidade, não têm mais se utilizado das Escrituras, muito menos mantido o poder do Espírito Santo em suas vidas e, como resultado disso, não temos mais a compunção dos corações como naquele dia de Pentecostes.

Queremos ver almas verdadeiramente convertidas em nossas igrejas locais? Enchamo-nos do Espírito Santo, preguemos a Cristo e usemos corretamente as Escrituras e as almas se renderão aos pés do Senhor!

-Depois de ter pregado a Cristo e proclamado a Palavra, Pedro trouxe a essência da mensagem pentecostal: “arrependei-vos e cada um de vós seja batizado em nome de Jesus Cristo, para perdão dos pecados e recebereis o dom do Espírito Santo, porque a promessa diz respeito a vós, a vossos filhos, e a todos os que estão longe; a tantos quantos Deus nosso Senhor chamar” (At.2:38,39).

-Pedro não trazia qualquer inovação, mas repetia a mensagem de Jesus Cristo (Mc.1:15), apenas agora se tendo a realidade do Espírito Santo, que viera ser o outro Consolador (Jo.14:16), diante da ascensão de Jesus.

-A mensagem pentecostal que os missionários Daniel Berg e Gunnar Vingren sintetizaram como “Jesus salva, cura, batiza com o Espírito Santo e leva para o céu”, que há 115 anos tem sido pregada no Brasil, não pode mudar nem ser alterada. É esta a mensagem que a Igreja deve repetir até o dia do arrebatamento.

-Não há outro evangelho (Gl.1:6-9) e todos quantos pregam outra mensagem são anátemas, ou seja, malditos, enganadores que estão a ser usados pelo nosso adversário para nos desviar da fé, do caminho da salvação.

-Nos dias hodiernos, são muitos os que estão a dar ouvidos a espíritos enganadores e a doutrinas de demônios (I Tm.4:1), mas nos mantenhamos na mesma mensagem pregada desde o dia de Pentecostes e, certamente, não só nos salvaremos, como levaremos muitos à salvação.

-A Igreja tem de ser formada a partir de uma genuína conversão dos ouvintes da Palavra. Ela é a “ekklesia”, ou seja, os “chamados para fora”, i.e., a reunião das pessoas que abandonaram o mundo de pecado, que nasceram de novo, que viram o reino de Deus (Jo.3:3).

-Nos dias hodiernos, há uma completa confusão no que significa ser Igreja. Embora não possamos, de forma alguma, desconsiderar que a igreja local é um grupo social, não se limita a isto, mas tem de ser uma porção

da Igreja, o corpo de Cristo, corpo este que é místico, ou seja, misterioso, sobrenatural, formado pelo novo nascimento, pela nova geração.

-O membro da Igreja é aquele que percebe que o mundo é perverso e que tem de sair dele, que há uma viva esperança de salvação na pessoa de Jesus Cristo, esperança esta baseada na Sua ressurreição dentre os mortos e que somos coerdeiros de Cristo, que nos aguarda uma herança incorruptível e incontaminável, que se encontra nos céus (I Pe.1:3,4).

-Muitos perderam esta noção e se envolvem em várias estratégias de “crescimento de igrejas”, onde, porém, desconsideram o ponto fundamental e essencial, que é a conversão das almas, o seu abandono do pecado e do mundo como condição “sine qua non” para ingressar na igreja.

-Tomemos cuidado, pois estamos inserindo no meio da igreja local pessoas que não se converteram, que não deixaram o pecado nem o mundo e que apenas aderiram a um grupo social. Deus nos guarde!

-Somente os que receberam a Palavra foram batizados, num total de quase três mil almas (At.2:41).

-O fato de os convertidos terem sido logo batizados nas águas não nos permite tornar isto uma doutrina, como fazem alguns segmentos, inclusive também centenários em nosso país.

-O batismo imediato ocorrido no dia de Pentecostes, assim como a manifestação das línguas repartidas de fogo, era decorrente das circunstâncias do momento.

-Estávamos na inauguração da Igreja, a multidão, na sua grande maioria, eram pessoas que nem sequer eram habitantes de Jerusalém e que deveriam regressar para seus lares depois da festividade. Assim, era premente que fossem batizados de pronto.

Ademais, eram todos judeus ou prosélitos (ou seja, gentios convertidos ao judaísmo) (At.2:5), que já conheciam as Escrituras e, portanto, não careciam ser nelas ensinados, tendo, dentro deste conhecimento, crido que Jesus era o Cristo prometido.

-Lembremo-nos de que, na Sua grande comissão, o Senhor Jesus mandou aos Seus discípulos que fossem às nações e as ensinasse e, só então, as batizassem em nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo (Mt.28:19), a mostrar, pois, da necessidade do discipulado antes do batismo nas águas como regra geral, para aqueles que desconhecessem as Escrituras, como seria o caso das “nações”, ou seja, dos gentios, como vemos ocorrer, por exemplo, em Antioquia, a primeira igreja gentílica (At.11:26).

-O importante é notar que somente foram batizados os que receberam a Palavra. O batismo não salva pessoa alguma, mas apenas confirma uma salvação já ocorrida.

Como afirma a Declaração de Fé das Assembleias de Deus: “…Reconhecemos esse ato [o batismo em águas – observação nossa] como o testemunho público da experiência anterior, o novo nascimento, mediante o qual o crente participa espiritualmente da morte e da ressurreição de Cristo: ‘Sepultados com Ele no batismo, n’Ele também ressuscitastes pela fé no poder de Deus, que O ressuscitou dos mortos’ (Cl.2:12) …” (DFAD 2.ed. XI.1, p.166).

-Isto é fundamental, pois a descaracterização da igreja local como porção da Igreja tem na negligência deste ponto um dos seus principais elementos. A apostasia generalizada quase sempre começa, na história da Igreja, pela permissão de batismos indiscriminados entre o que receberam e os que não receberam a Palavra. Tomemos cuidado!

II – A PREGAÇÃO DE PEDRO APÓS A CURA DO COXO DA PORTA FORMOSA DO TEMPLO

-Após o registro do sermão de Pedro no dia de Pentecoste, Lucas também irá reduzir a escrito o sermão proferido pelo mesmo Pedro, mas, agora, no templo, por ocasião da cura do coxo da porta Formosa, uma outra ocasião em que houve grande número de conversões e onde vemos a fidelidade à pregação do Evangelho por parte da igreja em Jerusalém.

-Diante da cura do coxo da porta Formosa, que causou um grande alvoroço no templo, Pedro não perdeu tempo. Percebendo que o povo, atônito com o acontecido, viera ao alpendre de Salomão, onde a igreja se reunia (At.5:12), passou a pregar-lhes o Evangelho.

-O milagre vinha como um chamariz para a pregação da Palavra. O milagre não substituiu a pregação da Palavra. A mensagem da salvação é prioritária. Não se transformou o alpendre de Salomão numa “tenda de milagres”, mas, ante o sinal realizado, criou-se uma oportunidade para a pregação da Palavra.

-O objetivo dos sinais, prodígios e maravilhas é chamar a atenção das pessoas para a pregação do Evangelho, é um meio de atração, não um fim em si mesmo.

A inversão que se verificou a respeito na história do movimento pentecostal, a chamada “segunda onda pentecostal”, quando se passou a enfatizar mais a cura divina do que a salvação das almas, trouxe grande prejuízo para o avivamento pentecostal, dando margem ao surgimento de charlatanismo e a práticas muito próximas da feitiçaria.

-Muitos movimentos têm, inadvertidamente, alterado a ordem bíblica. Diante de sinais e milagres, priorizam o estímulo e incentivo a mais sinais e maravilhas, não se preocupando em pregar a Palavra e a ensinar a doutrina dos apóstolos.

-Sem a perseverança na doutrina dos apóstolos, na comunhão, no partir do pão e nas orações, os sinais e maravilhas desaparecerão ou, o que é pior, abrir-se-á a oportunidade para que os espíritos enganadores e as doutrinas de demônios levem o povo à apostasia da fé (I Tm.4:1).

-Enquanto muitos abandonam os necessitados à própria mercê, não estimulando nem incentivando a fé para a realização de sinais e maravilhas, outros priorizam a ocorrência de milagres e de sinais, sem se preocuparem em alimentar o povo espiritualmente com a Palavra de Deus.

Tanto um quanto outro levam o povo a situações espirituais extremamente perigosas, com grave risco de se perder a salvação. Tomemos cuidado!

-Pedro pregou o arrependimento dos pecados, a conversão mediante a fé em Cristo Jesus (At.3:12-26), sabendo que aquele coxo fora curado para que se abrisse uma oportunidade de pregar o Evangelho àquela gente.

-Os sinais e maravilhas são um importante chamariz para a evangelização, mas não podemos, diante da ocorrência de milagres, priorizar as necessidades materiais do povo, mesmo as de saúde, sem que, antes, venhamos a fazer aquilo que é o mais importante: pregar a salvação na pessoa de Cristo Jesus.

-Pedro desvia o foco de si para Jesus. Todos estamos admirados com o milagre realizado, mas Pedro logo transmitiu a admiração para Jesus. Era Ele quem havia curado o coxo, porque Ele havia sido glorificado por Deus, depois de ter sido morto e ter ressuscitado (At.3:13-15).

-Pedro mostra, claramente, que devem os discípulos de Jesus glorificá-l’O, pois, como se expressa de modo muito feliz a Declaração de Fé das Assembleias de Deus: “…Entendemos que a função primordial da Igreja é glorificar a Deus: ‘quer comais, quer bebais ou façais outra qualquer coisa, fazei tudo para a glória de Deus’ (I Co.10:31). …” (DFAD. 2. ed. X.4, p.154).

-Pedro aqui tem uma postura que seria retomada pela Reforma Protestante, no quinto “sola”, que é o “Sola Dei Gloria”, só se deve dar glória a Deus. Pedro não admitiu ser admirado, ser venerado por aquela gente, mas disse, com todas as letras, que só a Jesus se deveria glorificar.

-Jesus é, uma vez mais, apresentado tanto como Deus quanto como homem. Chama Jesus de “Filho do Deus de Abraão, Isaque e de Jacó”, mas também diz que Ele é o homem que foi entregue a Pilatos e que foi morto por insistência dos judeus, embora Pilatos O achasse inocente (At.3:13,14).

-Pedro não só atribui a devida culpa aos judeus pela morte de Cristo, como também disse que isto havia sido o resultado da negação de Jesus por parte da multidão, que preferira a soltura de um homicida, mas que, apesar de tudo isto, Jesus havia ressuscitado e os discípulos eram testemunhas desta ressurreição (At.3:15).

-Pedro fala a verdade, mostra como os judeus haviam matado Jesus e como O haviam negado como Salvador. Na pregação fiel do Evangelho, não podemos deixar de apontar o pecado e mostrar a necessidade de arrependimento e confissão.

-Não se pode, como muitos estão a fazer em nossos dias, procurar dourar a pílula, tentar enxergar “pontos positivos” ou “boa vontade” na vida mundana, feita na prática do pecado e que representa a negação de Jesus Cristo, a incredulidade na Sua mensagem.

-Pedro, ao pontuar o pecado cometido pelos judeus, não o faz para desejar-lhes o mal ou o castigo eterno, mas simplesmente diz a verdade e, em contraponto a isto, diz que o coxo fora curado exatamente porque Pedro e João creram em Jesus. É pela fé em o nome de Jesus que se havia dado perfeita saúde ao coxo (At.3:16).

-Diante disto, o apóstolo mostra aos seus ouvintes que todas as reprováveis e más atitudes feitas em relação a Cristo poderiam ser perdoadas, o pecado poderia ser perdoado, pois era possível o arrependimento e a conversão, que era, então, oferecida.

-A fé em Jesus, diz o apóstolo, traria o perdão dos pecados, pecados que seriam apagados e passariam os que
cressem a desfrutar “os tempos do refrigério pela presença do Senhor” (At.3:19).

-Pedro mostrava, então, que Jesus cura, mas que o mais importante era que Jesus salva e que, a partir da
salvação, a pessoa alcança “os tempos do refrigério na presença do Senhor”.

-Esta expressão mostra claramente o que significa a vida cristã: são “tempos de refrigério na presença do Senhor”.

-Por primeiro, quando alguém crê em Jesus, passa a gozar da Sua presença, ou seja, o perdão dos pecados traz novamente a comunhão entre o homem e Deus e ele, então, passa a ser ouvido por Deus, passa a ter diálogo e conviver com Ele, pois comunhão com o Senhor é vida (Is.59:2; Jo.5:24).

-Por segundo, quando alguém crê em Jesus para a ter “refrigério” e aqui a palavra grega empregada é “anapsixeos” (ἀναψύξεως), cujo significado é “recuperação de fôlego, reavivamento, reanimação”, ou seja, “uma nova vida”, “uma vida espiritual”.

-A fé em Jesus traz muito mais que uma cura física, ainda que milagrosa, como a ocorrida com o coxo, mas
uma “novidade de vida”, uma “vida eterna”, que nos permitirá viver com o Senhor para todo o sempre.

-Esta “nova vida”, ainda, tem a garantia de que Jesus nos será enviado, de que viveremos para sempre com Ele, tendo, então, Pedro revelado que Jesus ainda haveria de cumprir as profecias messiânicas ainda não cumpridas, nos “tempos da restauração de tudo” e que virá do céu para fazê-lo (At.3:20,21).

-Pregando a judeus, Pedro mostra que não deveriam aguardar o “reino messiânico”, mas, sim, imediatamente crerem em Jesus para terem a vida, a comunhão com Deus. Não estava, pois, mais a pregar “o evangelho do reino de Deus”, mas o “evangelho da salvação”, o “evangelho da graça de Deus” (At.20:24; Ef.1:13).

-É este o Evangelho que deve ser pregado pela Igreja, o evangelho que diz que tanto judeus quanto gentios precisam crer em Jesus para que possam ter a vida eterna e uma comunhão eterna com o Jesus, que virá nos buscar: Jesus salva, cura e brevemente voltará.

-Não deveriam os judeus aguardarem a restauração do reino a Israel, mas, sim, tomarem decisão de crer em Jesus, porque, como disse Moisés, quem não cresse no Messias seria exterminado dentre o povo, ou seja, morreria em seus pecados (At.3:22,23).

-Embora os judeus tivessem negado Jesus, não tivessem crido n’Ele como o Cristo, não O tivessem recebido
como tal, poderiam, agora, ainda, crer em Jesus e alcançar a salvação das suas almas.

-Pedro mostra que o Senhor Jesus, mesmo rejeitado, dava agora, primeiramente aos judeus, a oportunidade de se salvarem, pois, como diziam os profetas, e vemos aqui, uma vez mais, a base bíblica da pregação, falavam do Messias e da Sua obra salvífica, de que, através do Cristo, seriam benditas todas as famílias da terra.

-Quem crê em Cristo, é abençoado e se desvia das suas maldades. A “nova vida” oferecida envolve receber a bênção divina, libertando-se da maldição que tem todo aquele que rejeita a Cristo (Jo.3:36), como também ser liberto do pecado, tendo os pecados cometidos perdoados e passando a não mais viver sob o domínio do pecado (Jo.8:34-36).

-O resultado daquela pregação foi a conversão de mais pessoas a Cristo, passando o número dos crentes, que era de quase três mil, para quase cinco mil (At.4:4).

-O crescimento da Igreja resultou, portanto, de uma vida no altar e da consequente realização de um milagre, pelo qual se voltou a pregar a Palavra de Deus.

-Esta é a simplicidade do Evangelho: se a Igreja estiver em comunhão com Deus, orando e meditando nas Escrituras, perseverando na doutrina dos apóstolos, na comunhão, no partir do pão e nas orações, o Espírito Santo dirigirá a Igreja, haverá sinais e maravilhas e a Palavra de Deus será pregada e, como efeito de tudo isso, pessoas se renderão ao Senhor Jesus.

-Verdade é que, por causa deste milagre e pregação, os apóstolos foram presos e levados até o Sinédrio, com o início da perseguição à Igreja (At.4:1-3), tema que trataremos em outra lição, mas isto também faz parte do trabalho da Igreja, pois, como disse o Senhor Jesus, seremos aborrecidos do mundo assim como Ele o foi (Jo.15:18), ainda mais neste tempo que é o “princípio das dores” (Mt.24:8-10; Lc.21:12).

Pr. Caramuru Afonso Francisco

Fonte: https://www.portalebd.org.br/classes/adultos/11591-licao-3-uma-igreja-fiel-a-pregacao-do-evangelho-i

Glória a Deus!!!!!!!