INTRODUÇÃO
-Na sequência do estudo da igreja em Jerusalém, estudaremos hoje o episódio que envolveram Ananias e Safira.
-A Igreja é a coluna e firmeza da verdade.
I – OS EFEITOS DA COMUNHÃO EXISTENTE NA IGREJA EM JERUSALÉM
-Em lição anterior, já vimos como se comportava a igreja em seu nascedouro em Jerusalém. Havia, ali, a predominância dos chamados “três K” (Kristos – Cristo – , kerigma – proclamação da Palavra e koinonia – comunhão), a criar um ambiente que era uma verdadeira antecipação do céu na Terra (At.2:42-47).
-É importante salientar que este estado de coisas descrito por Lucas na igreja em Jerusalém não deve ser
considerado como uma “exceção” ou “resultado do primeiro amor”, como alguns, equivocadamente, pensam.
-Este estado de coisas é algo a ser buscado e alcançado por todas as igrejas locais hoje existentes, pois não se trata de uma situação inalcançável nem restrita aos tempos apostólicos, pois o nosso Deus é o mesmo, n’Ele não há mudança nem sombra de variação (Tg.1:17).
-A igreja em Jerusalém em nada diferia das demais igrejas locais que surgiram posteriormente. Nela estava o Espírito Santo (Jo.14:17), assim como o Espírito Santo também está nos crentes de todas as épocas, inclusive nos tempos trabalhosos em que vivemos (II Ts.2:7).
-Nela havia a companhia de Cristo, a cabeça da Igreja (Ef.5:23), que continua sendo a cabeça da Igreja e que, também, prometeu estar com os crentes até a consumação dos séculos (Mt.28:20).
-Para que a igreja local onde servimos ao Senhor tenha as mesmas qualidades descritas por Lucas na igreja em Jerusalém basta tão somente que também ajamos como aqueles crentes, ou seja, perseveremos na doutrina dos apóstolos, na comunhão, no partir do pão e nas orações (At.2:42).
A história da Igreja está repleta de exemplos de manifestações similares às registradas em Atos sempre que os crentes resolveram tornar ao modelo bíblico.
-Além do mais, ao contrário do que alguns também alardeiam, a igreja em Jerusalém não era uma “igreja perfeita”, visto que formada por seres humanos, tão imperfeitos como nós.
Veremos aqui um indício de que, no meio daqueles crentes, havia, sim, imperfeições e comportamentos reprováveis.
-Não fosse assim, o Senhor não teria levantado ali os apóstolos com o ministério da Palavra e da oração
(At.6:2,4), pois isto era prova evidente de que aqueles santos necessitavam, assim como nós, ser aperfeiçoados (Ef.4:12).
-O fato é que, em virtude da perseverança na doutrina dos apóstolos, comunhão, partir do pão e orações, criou-se um ambiente fraterno e solidário entre os crentes, de tal maneira que os salvos passaram a vender suas propriedades e fazendas, repartindo com todos, segundo cada um havia de mister (At.2:45).
-Em lição anterior, já tivemos a oportunidade de mostrar que este comportamento dos crentes de Jerusalém nada tem que ver com o comunismo, socialismo ou o marxismo-leninismo, como alguns chegam a afirmar, visto que era resultado não de uma “consciência de classe” mas, sim, de um completo desprendimento das coisas materiais e de um desejo de servir a Deus com dedicação exclusiva.
-Muito se tem discutido a respeito deste comportamento dos crentes de Jerusalém que, ao vermos o livro de Atos, não se reproduziu nas demais igrejas ao longo da história.
-Esta falta de reprodução de tal conduta fora de Jerusalém já é suficiente para que não transformemos este comportamento em uma “doutrina”, ou seja, não é um comportamento que se deva exigir de toda e qualquer pessoa que se converta a Jesus que se desfaça dos seus bens e entregue todo seu patrimônio para a sua igreja local.
-O gesto dos crentes hierosalamitas decorreu da intensa comunhão que eles passaram a viver entre si, algo que não foi reprovado pelo Senhor, já que, em momento algum, vemos o Senhor repreendendo os crentes por assim procederem, mas, bem ao contrário, como teremos ocasião de estudar nesta lição, o que se tem é a reprovação do Senhor por quem quis escamotear este comportamento.
-De pronto, portanto, vemos que se tratou de uma conduta que, se não é exigível a todo e qualquer crente, se não é matéria de fé, não é, também, uma conduta que seja vedada, proibida por parte do Senhor.
-Isto nos mostra, pois, como, na dispensação da graça, existe, sim, um espaço em que o Senhor deixa, permite que o crente execute a sua vontade, vez que não se está diante de qualquer transgressão à Palavra do Senhor.
Já no nascedouro da Igreja, pois, notamos que Jesus não quer um corpo uniforme, embora exija que este corpo seja unido.
-Alguns estudiosos acham que os crentes de Jerusalém assim se comportaram porque imaginavam que o retorno do Senhor para o estabelecimento de Seu reino em Israel era questão de dias, algo que ocorreria muito brevemente.
-Assim, diante da esperança messiânica, desfizeram-se de seu patrimônio, convictos de que nada daquilo tinha valor ante a iminência da volta de Cristo.
-Tratava-se, porém, de um entendimento que não encontrava respaldo nos ensinos de Jesus, que, nas parábolas atinentes à Sua volta, sempre mostrava que haveria um interregno longo de tempo entre Sua ascensão e Sua vinda. Senão vejamos.
-Na parábola das dez virgens, o noivo chegou à meia-noite, quando o costumeiro era o noivo chegar ao pôr- do-sol, tendo o Senhor sido explícito a dizer que o noivo tardou (Mt.25:5,6); na parábola dos dez talentos, diz que o Senhor voltou “muito tempo depois” (Mt.25:19).
-Como se isto fosse pouco, o próprio Senhor, antes de ascender aos céus, disse aos discípulos que eles seriam testemunhas até aos confins da terra (At.1:8), a indicar, portanto, um tempo considerável, pois o Evangelho deveria ser pregado por todo o mundo.
-Por isso, aliás, esta conduta não se reproduziu nas demais igrejas locais ao longo da expansão da Igreja,
como também o resultado disto foi a penúria em que ficaram os crentes de Jerusalém que, posteriormente, tiveram de ser ajudados pelas igrejas gentílicas, como nos mostram as coletas levadas a efeito pelo apóstolo Paulo em regiões como a Acaia e a Galácia (Rm.15:26; I Co.16:1; II Co.9:1,2).
-Observemos bem que não se está dizendo aqui que os crentes de Jerusalém erraram ao vender suas propriedades e fazer e repartir entre si o produto da venda.
-Este comportamento era fruto do amor de Deus nascido em seus corações (Rm.5:5) e do fato de que, com a conversão, nosso coração passa a estar preso às coisas celestiais e não, terrenas (Mt.6:19-21).
-Apenas se está a dizer que este gesto de desprendimento total é resultado, além do amor, da convicção de que o patrimônio não precisava ser mantido diante da iminente volta do Senhor.
Assim, como não se poderia tolerar a necessidade dos irmãos em Cristo e como tudo aquilo logo seria nada, ante a volta do Senhor, nada mais razoável que se vender tudo e repartir com todos, para que houvesse o desfrute até a chegada do Messias.
-Outros estudiosos, ainda, veem neste gesto, também, a Providência Divina. Com efeito, com a venda das propriedades e fazendas, criou-se uma circunstância que facilitou a dispersão dos crentes de Jerusalém com o acirramento da perseguição, como teremos ocasião de estudar em lição posterior.
-Sem bens, foi muito mais fácil aos crentes de Jerusalém saírem da cidade e fugirem para Judeia, Samaria e outras colônias judaicas, levando a Palavra (At.8:1).
O Senhor, pois, permitiu e, de certo modo, chancelou este comportamento pois ele seria um fator que estimularia o cumprimento do esquecido “ide” ordenado antes da ascensão (At.1:8).
-Como se não bastasse isso, também, diante de tal comportamento, os crentes de Jerusalém foram os únicos a não sofrerem qualquer prejuízo econômico-financeiro em virtude das guerras entre judeus e romanos, que levaram, por fim, à destruição do templo e de Jerusalém no ano 70, além da diáspora judaica, a partir do ano 135 e que só findou em 1948, com a criação do Estado de Israel.
-Como os crentes de Jerusalém venderam suas propriedades e bens ainda por volta dos ano 30 e 40, todo o patrimônio deles serviu para o bem da Igreja, não tendo sido objeto de confisco seja pelo governo romano, seja pela cúpula religiosa judaica. Deus mostra, assim, que, quando Ele quer, o maligno não consegue tocar nem no povo de Deus, nem mesmo em seu patrimônio. Aleluia!
-Assim, motivados pelo amor de Deus, que os levavam a não aceitar a necessidade do irmão (I Jo.3:16-19), bem como pela crença de que a volta de Jesus era iminente e, por Providência Divina, que queria que o patrimônio dos crentes fosse por eles usufruído e não se tornassem empecilho na propagação do Evangelho, os crentes de Jerusalém vendiam suas propriedades e as depositavam aos pés dos apóstolos, para serem utilizados para suprimento das necessidades dos crentes (At.4:34).
-Temos aqui um efeito material de uma comunhão que era, prioritariamente, espiritual. A perseverança na doutrina dos apóstolos, comunhão, partir do pão e orações fazia com que o coração e a alma da multidão dos que criam era um (At.2:32). Daí porque ninguém considerasse que algo lhe fosse próprio, mas que tudo era comum, inclusive os bens materiais.
-Esta primazia do espiritual sobre o material deve ser enfatizada porque vivemos dias em que o inverso está a ocorrer e, inclusive, já há aqueles que querem que os crentes depositem aos seus pés vultosas quantias, chegando, mesmo, a entrar em “transe” diante de tanta dinheirama “a seus pés”.
-Tais condutas, entretanto, nada têm de bíblicas e são abominações que devem ser repelidas com veemência, visto que não passam de artimanhas de amantes do dinheiro que, por amarem Mamom, não têm qualquer amor a Deus (Mt.6:24). Tomemos cuidado com estes mercenários!
-Os crentes consideravam-se iguais entre si, não tinham qualquer disputa por cargos, posições, entendiam que todas as bênçãos, tanto espirituais quanto materiais, estavam à disposição de todos, nada era próprio ou peculiar a este ou aquele, tudo lhes era comum.
-Que maravilha se entendermos que, em Cristo, não há acepção de pessoas e que todos nós devemos servir juntamente, unidos, para o crescimento da obra de Deus. Nada nos é próprio ou peculiar, mas tudo é comum, todos somos de Cristo (I Co.3:21-23; 7:22; II Co.10:7).
-Esta igualdade, entretanto, não significa que não haja ordem nem disciplina na Igreja. A Igreja é uma nação e, como tal, possui não só povo (pessoas), mas também governo.
-Tanto assim é que, após o médico amado dizer que tudo era comum entre os crentes, imediatamente após, afirma que os apóstolos davam, com grande poder, testemunho da ressurreição do Senhor Jesus (At.4:33), ou seja, os apóstolos estavam à frente daquele povo e tinham um trabalho específico que lhes fora confiado.
-A Igreja é o corpo de Cristo, mas cada crente é seu membro em particular (I Co.12:27). Cada um tem seu papel, indelegável e intransferível, no corpo.
-Lamentavelmente, a chamada “mentalidade revolucionária” que tem dominado o Ocidente a partir do chamado Iluminismo, no século XVIII, confundiu a igualdade com o “igualitarismo”, segundo o qual todos os seres humanos são idênticos, o que se trata de grande mentira, porquanto não há um ser humano que seja idêntico ao outro, tanto que somos identificado seja pela íris dos nossos olhos, seja pelas nossas impressões digitais, seja pelo reconhecimento facial, porquanto somos distintos uns dos outros, somos indivíduos, ou seja, aqueles que são singulares, que não podem ser confundidos com nenhum outro ser humano.
-Eis o motivo, aliás, porque os crentes que vendiam suas propriedades e fazendas, a fim de suprimento da necessidade de todos, não passava a ajudar diretamente os necessitados, mas levava o preço aos pés dos apóstolos, reconhecendo a posição de governo que tinham eles na igreja (At.4:34).
-Não se tratava, pois, de anarquia ou “comunismo”, como alguns interpretam, mas de uma comunidade que tinha governo e organização, apesar do respeito e igualdade mútuos, igualdade diante de Deus, mas não uma identidade entre si.
-Diante deste gesto de desprendimento, o resultado foi a autossuficiência econômico-financeira da Igreja. Os crentes podiam servir a Deus com exclusividade, sem ter necessidade alguma de ter uma vida secular, pois “não havia pois entre eles necessitado algum”.
-Tal circunstância, no entanto, somente se dava porque os crentes não criam que o futuro seria longo, como também porque tudo era permitido por Deus que queria que, brevemente, eles saíssem de Jerusalém para levar o Evangelho até os confins da Terra.
-Tanto assim foi que, como já se disse, depois de doze anos, os crentes em Jerusalém tiveram de sair da cidade e, dali para a frente, os crentes passaram a ter grandes dificuldades financeiras, uma vez que o sustento das pessoas depende do trabalho, como determinado pelo próprio Deus (Gn.2:15; 3:17-19).
-Os apóstolos, apesar de terem o governo da Igreja, também eram desprendidos dos bens materiais e, em virtude disso, distribuíam aquilo que recebiam dos que vendiam suas herdades para os necessitados, nada retendo para si.
-Na distribuição dos bens, eram iguais aos demais, algo bem diverso do que ocorre com as lideranças mercenárias da atualidade, que vivem como verdadeiros nababos, mostrando, assim, claramente, que, ao contrário dos apóstolos, quiseram ser ricos, caindo em tentação e em laço, e em muitas concupiscências loucas e nocivas, que submergem os homens na perdição e na ruína, tendo uma cobiça que os fizeram desviar da fé,
traspassando a si mesmos com muitas dores (I Tm.6:9,10). Fujamos destas coisas e desta gente, irmãos (I Tm.6:11)!
II – A FALTA DE VIGILÂNCIA DE ANANIAS E SAFIRA
-Em meio a este ambiente salutar e espiritual da igreja em Jerusalém, as Escrituras registram que José, que era chamado de Barnabé, um levita, natural de Chipre, vendeu uma herdade, trouxe o preço e a depositou aos pés dos apóstolos (At.4:36,37).
-Este gesto de Barnabé não era novidade, pois muitos assim faziam, mas, certamente, três fatores chamaram a atenção nesta atitude:
primeiro, que Barnabé era levita e os levitas até hoje não muito considerados entre os judeus, por serem da tribo separada para o serviço do Senhor;
segundo, Barnabé era um judeu da diáspora, ou seja, não era natural da Palestina e, diante disso, o fato de se desfazer de uma herdade que, com muito custo, tinha adquirido na Terra Prometida, revelava o alto grau de desprendimento de que Barnabé era movido;
terceiro, o preço foi, sem dúvida, alto, para causar a admiração de todos.
-Esta oferta trazida por Barnabé, por todos estes motivos, repercutiu no meio da igreja e isto incomodouAnanias, que também tinha uma boa propriedade (e podemos dizê-lo porque só a parte do preço que depositou aos pés dos apóstolos deveria ser maior que o preço todo dado por Barnabé e que tinha causado admiração).
-Temos aqui, de pronto, a manifestação de um mal que, se não houver vigilância, aflige qualquer crente: a inveja.
-Inveja é uma atitude que, desde o princípio da história da humanidade, costuma surgir entre irmãos, como vemos no caso de Caim (Gn.4:5) bem como nos irmãos de José (At.7:9), ou, com o próprio Jesus (Mt.27:18).
-Com efeito, a “inveja” é “sentimento em que se misturam o ódio e o desgosto, e que é provocado pela felicidade, prosperidade de outrem”, “o desejo irrefreável de possuir ou gozar, em caráter exclusivo, o que é possuído ou gozado por outrem”.
-A palavra latina é “invidia”, cujo significado é “lançar um mau olhado”, ou seja, olhar com ódio, o que nos recorda o ensino do Senhor Jesus a respeito do cuidado que devemos ter com os nossos olhos (Mt.6:22,23).
-Como explica o Dicionário Vine, a palavra hebraica para “inveja”, “qana’ “ (קוא) ,
“…a um nível inter- humano (…) tem um sentido altamente competitivo (…), o significado essencial de “qana’” é a defesa dos direitos próprios com exclusão dos direitos dos demais…” (VINE, W.E. Caribe Editorial. Compilado por Dumane. Disponível em; www.semeadoresdapalavra.net. Acesso em 21 dez. 2010, p.69) (tradução nossa de texto em espanhol).
-Notamos, portanto, que a inveja é algo que decorre de um egocentrismo que desvia o foco das relações mantidas com os irmãos, em que se passa a ter uma competição, uma rivalidade, que nega totalmente a fraternidade e o amor ao próximo, que decorrem do amor a Deus.
Não é, pois, coincidência que Caim tenha se justificado, após seu cruel crime, diante de Deus com a irônica manifestação: “sou eu guardador do meu irmão?” (Gn.4:9).
-Por isso, a inveja é algo contra o que deve o crente lutar diariamente (Sl.37:1; Pv.3:31; 14:30), pois é uma manifestação da natureza carnal que pode nos levar à perdição (Pv. 27:4; Sl.106:16,17; Mc.7:20-23). Assim agiu Asafe que, notando estar sendo alvo do domínio da inveja, logo foi aos pés do Senhor (Sl.73:1-17).
-Ananias, porém, além de não ter o desprendimento que tinham os demais crentes de Jerusalém, tanto que não havia abrido mão de sua propriedade até então, indignou-se com o gesto de Barnabé e a repercussão gerada com a sua oferta.
-Notemos que Ananias não estava a pecar por não ter vendido sua propriedade, pois não lhe era exigível (At.5:4), mas tudo indica que não o fizera por estar com seu coração naquele bem, o que, aí sim, representava um comportamento inadequado para um servo do Senhor, algo que ninguém sabia, mas que era de pleno conhecimento do Senhor, que conhece o coração do homem (I Sm.16:7; Jo.2:25; Hb.4:13).
OBS: “…Na verdade, Satanás estava enchendo o coração deles de cobiçosa honra, estavam cheios de inveja de Barnabé, mas não estavam dispostos a pagarem o preço que Barnabé pagou…” (ALENCAR, Eliel A. Atos dos apóstolos: apregoando valores e testemunho que devem nortear a Igreja atual. Lição 5 – A grave mentira de Ananias e Safira. Betel dominical, 1. trim. 2011, ano 21, n. 78, p.29).
-Desta forma, Ananias, já antes da oferta de Barnabé, apresentava uma falha em seu caráter que, num ambiente como a igreja fiel ao Senhor, não fica para sempre oculto.
-Uma característica da igreja, como povo de Deus que é, é que o Senhor não permite que as coisas fiquem para sempre escondidas, mas tudo é revelado ao seu tempo (Lv.4:13,14; II Sm.12:12; Mt.10:26; Mc.4:22; Lc.12:2; I Co.11:19).
-Daquele ambiente em que havia comunhão, também havia aqueles que não compartilhavam do mesmo espírito, mas, antes, estavam envolvidos com sentimentos que não provinham de Deus, como o materialismo, o egoísmo, o sentimento faccioso, que tem origem na carne, no mundo e no diabo (Tg.3:14-16).
-Isto já existia na igreja em Jerusalém, como já havia existido durante o ministério terreno de Jesus entre os próprios apóstolos (Mt.18:1-14; Mc.9:33-37; Lc.9:46-48).
-Notamos, portanto, que a igreja em Jerusalém não era perfeita, assim como nenhuma igreja local o é ou o será, pois somente atingiremos a perfeição no dia do arrebatamento (I Co.13:10; I Jo.3:2,3).
-Assim, ao virmos a imperfeição entre os nossos irmãos, não podemos nos escandalizar, nem tampouco nos considerar superiores a nosso irmão, mas temos de tomar a atitude que Jesus nos manda, qual seja, a de sempre nos considerarmos os menores dentre todos os irmãos (Lc.14:7-11), de termos o comportamento de um menino, com inocência, sem mágoa ou ressentimento (Mt.18:3,4), cuidando de nós mesmos para que não venhamos a fracassar na fé (I Tm.4:16) e, principalmente, ajudando aqueles que manquejam para que possam, também, juntamente conosco, entrar no céu naquele dia (Hb.12:12,13; Jd.23).
-Ananias, porém, ao ver o gesto de Barnabé, não se conteve e quis ter para si a mesma repercussão positiva, admiração e respeito que o levita cipriota havia obtido junto à igreja em Jerusalém, sem que, entretanto, tivesse feito aquilo com estas intenções.
-Barnabé passou a ser admirado pelo seu gesto, e isto, também, era providência divina, que tinha para Barnabé um importante plano na expansão da Igreja, mas não era isto que Barnabé queria.
-Ananias, entretanto, queria ser admirado pelos irmãos, pois, assim como era preso à sua propriedade, também queria o galardão terreno. O que buscava não eram as “coisas de cima”, mas, sim, “as coisas terrenas”, a vanglória deste mundo.
-Ananias, então, arquitetou um plano para, a um só tempo, manter-se com seus bens materiais e obter a mesma admiração obtida por Barnabé. Venderia sua propriedade, mais valiosa que a de Barnabé, mas reteria parte do preço consigo.
Assim, não se desfaria de seu patrimônio e passava, simultaneamente, a ser o maior ofertante na igreja, suplantando Barnabé. Agradaria duplamente ao seu ego.
-Em seguida, contou tudo a sua mulher, Safira, que também nutria o mesmo sentimento de seu marido. Vemos que é importantíssimo que marido e mulher tenham comunhão entre si, é uma exigência do relacionamento conjugal, que faz com que marido e mulher sejam uma só carne (Gn.2:24), ou seja, tenham o mesmo plano de vida, o mesmo projeto sobre a face da Terra.
-Entretanto, não podemos nos esquecer que a união conjugal somente alcançará a plenitude de seus propósitos se ambos os cônjuges estiverem, também, em concordância com o Senhor.
-Por isso, Salomão fala do “cordão de três dobras” (Ec.4:12) para simbolizar o matrimônio resistente e capaz de superar as adversidades da vida, pois, além da união entre marido e mulher, torna-se necessário que marido e mulher estejam unidos com o Senhor.
A concordância entre marido e mulher mas em desacordo com a vontade de Deus não traz bons resultados, como vemos com Ananias e Safira, como também com Abrão e Sarai (Gn.16:1-3).
-Feito este acordo para ludibriar a Igreja, Ananias vendeu a propriedade, reteve parte do preço e o restante levou aos pés dos apóstolos, esperando, com isso, obter a mesma repercussão positiva que Barnabé havia auferido anteriormente.
-Assim que depositou o preço aos pés dos apóstolos, Pedro chamou Ananias que, certamente, já se sentia muito bem, vez que poderia vir dali, desde logo, um elogio público da parte de Pedro.
-No entanto, o que sucedeu foi bem diferente. Pedro, revelado pelo Espírito Santo, perguntou a Ananias porque havia permitido que Satanás tivesse enchido o seu coração e por que motivo ele havia tentado mentir a Deus, com aquele estratagema, já que o Senhor não lhe exigia que vendesse a propriedade.
-Após esta declaração do apóstolo, Ananias caiu e expirou, vindo um grande temor sobre todos os crentes que ouviram estas palavras do apóstolo (At.5:1-5).
-Temos aqui uma reprodução do que aconteceu também no início da dispensação da lei, quando os filhos de Arão, Nadabe e Abiú, também morreram fulminados por terem levado fogo estranho perante a face do Senhor (Lv.10:1-3).
-Naquela oportunidade, o Senhor disse que seria santificado naqueles que se chegassem a Ele, bem como seria glorificado diante de todo o povo.
-A morte de Ananias representava a demonstração clara e inequívoca da presença do Senhor no meio da Igreja.
-Com aquele gesto, o Senhor mostrava claramente aos crentes de que Ele Se fazia presente no meio do povo e de que conhecia o interior de cada um daqueles que lá estavam. Deus mostrava o Seu senhorio, como a necessidade de chegarmos a Ele com temor e tremor, com reverência e obediência.
-Também indicava que, na nova aliança, na dispensação da graça, todos ali eram sacerdotes e deviam estar inteiramente dedicados ao Senhor, não permitindo que Satanás pudesse entrar nos corações dos crentes.
-Aquela morte física era uma figura da morte eterna que acomete todos quantos se deixam envolver pelo diabo, mundo e carne.
-A morte de Ananias tinha um efeito didático não só para os crentes de Jerusalém mas para os crentes de todos os tempos, pois pior do que morrer fisicamente é perder a salvação e ficar eternamente separado do Senhor, tendo uma vez já conhecido a experiência da salvação.
-O efeito da morte de Ananias não era a sua destruição, mas uma lição que o Senhor dava ao Seu povo a respeito da seriedade da vida espiritual, que lida com a eternidade.
-Não podemos “brincar de ser crentes”, pois o assunto é extremamente sério. Deus exige santidade e
obediência e não poderemos ter comunhão com Ele se não atendermos a estas exigências.
-Ananias morreu porque não teve temor a Deus, preferindo, antes, apresentar-se diante do Senhor com mentira para tirar proveito para seu ego do que temer a Deus, amar o próximo e desfrutar da comunhão advinda da salvação. Quantos assim não têm procedido nos dias hodiernos? Tomemos cuidado, amados irmãos!
-Quase três horas depois, Safira veio também para a reunião. O que percebemos, de pronto, é que era costume dos crentes ficar reunidos o dia todo para juntos louvar a Deus e adorar o Seu santo nome.
-O texto sagrado permite-nos inferir que os crentes estavam no alpendre de Salomão (At.5:12), onde passavam o dia adorando ao Senhor, aproveitando o período de serviço no templo mas que, em outros horários, inclusive à noite, também se reuniam em casas (At.2:46; 5:42; 12:12).
-Notamos, pois, que os crentes de Jerusalém tinham prazer em se reunir e ficar na presença do Senhor, de onde não queriam sair apressadamente (Ec.8:3).
-Ultimamente, no entanto, não há esta mesma disposição por parte da esmagadora maioria dos crentes. Dirão alguns que isto ocorria em Jerusalém porque estavam integralmente dedicados à obra do Senhor, nem sequer mais trabalhavam, vivendo dos recursos das vendas de propriedades e herdades.
-Em parte, isto é verdadeiro, mas não devemos nos esquecer de que não eram todos os que assim procediam e que, no mesmo livro de Atos, notaremos que isto não mais se repetirá, mas os crentes continuarão a se reunir por largos períodos, tendo a adoração a Deus como prioridade (At.20:9-11).
-O que se tem aqui é uma demonstração de que os crentes realmente sabiam a quem deviam dar relevância e importância, buscando primeiro o reino de Deus e a sua justiça (Mt.6:33). Temos agido assim? Ainda é tempo de mudarmos nossas prioridades!
-Safira chegou ao templo e Pedro, dirigido pelo Espírito Santo, perguntou-lhe por quanto havia sido vendida a propriedade. Safira, então, confirma o falso preço combinado com Ananias e, diante desta dureza de coração, Pedro assina a ela a mesma sentença de seu marido.
-Aqui Deus mostra que não faz acepção de pessoas e que deu oportunidade a Safira para que se arrependesse. Como não houve arrependimento, o fim de Safira foi o mesmo de seu marido. O resultado foi o mesmo: grande temor em toda a igreja e em todos os que ouviram estas coisas (At.5:8-11).
-É tolice, amados irmãos, querer mentir ao Espírito Santo. Deus é onisciente: tudo sabe, tudo vê (Sl.139:11-16). Encobrir pecados de Deus é impossível e pecado é uma transgressão contra o Senhor.
De que adianta encobrir pecados da igreja, familiares e da sociedade, se se trata de um assunto exclusivamente entre nós e Deus, de quem nada pode ficar encoberto (Hb.4:13)? O resultado disto será tão somente a morte, salário de todo pecado (Rm.6:23) e a revelação de tudo ao povo de Deus, pois o Senhor não Se deixa escarnecer (Gl.6:7).
-Tanto Ananias quanto Safira receberam a justa retribuição pela sua impiedade, pois não tem escape quem não atentar para a salvação em Cristo Jesus (Is.59:18; Os.9:7; Hb.2:2,3).
-Tinham inveja de Barnabé, eram movidos por sentimento faccioso, quiseram tomar para si uma glória que era devida somente ao Senhor, deixaram-se dominar pelo diabo. Por causa disso, pereceram e, didaticamente, houve a sua morte física para que todos nós aprendamos a lição.
-Ainda hoje há muitos Ananias e Safiras nas igrejas, que estão a perecer diariamente, tendo a pior das mortes: a morte espiritual.
Assim como o primeiro casal, até demoram anos para que sejam notórias suas mortes, mas elas acontecem instantaneamente como ocorreu com Ananias e Safira, ou, no tempo da lei, com Nadabe e Abiú. Que o Senhor nos guarde para que não venhamos a ter a mesma sentença.
III – IGREJA, COLUNA E FIRMEZA DA VERDADE
-Quando o Senhor Jesus dialogava com o mestre de Israel Nicodemos, disse que havia vindo ao mundo para salvar a humanidade (Jo.3:17) e que quem n’Ele cresse seria salvo, mas quem não fizesse, estaria condenado (Jo.3:18).
-Em prosseguimento ao seu ensino a Nicodemos, Cristo disse que a condenação do incrédulo seria este amar mais as trevas do que a luz, que era o próprio Jesus, e este amor às trevas seria a prática da maldade, porque as suas obras seriam más (Jo.3:19).
-Precisamente porque o incrédulo rejeita Jesus e, por conseguinte, pratica a maldade, não vem para a luz, para que suas obras não sejam reprovadas, bem ao contrário daquele que crê em Cristo, que vem para a luz e, por isso mesmo, pratica a verdade, porque quer que suas obras sejam manifestas, porque são feitas em Deus (Jo.3:20,21).
-Neste ensino de Cristo, vemos que aquele que crê n’Ele pratica a verdade, ou seja, a verdade é uma característica do discípulo de Jesus, é uma demonstração de quem recebeu a Nosso Senhor como único e suficiente Salvador.
-Não é por acaso, pois, que, ao se dirigir aos judeus que haviam crido n’Ele, Jesus diz que eles deveriam permanecer na Sua Palavra e que, em assim fazendo, seriam Seus discípulos e conheceriam a verdade e a verdade os libertaria (Jo.8:31,32).
-Quem crê em Jesus, passa a praticar a verdade, porque crê n’Aquele que é a própria verdade (Jo.14:6) e que foi enviado por Quem é verdadeiro (Jo.8:26). Por isso, passaram a conhecer e a praticar a Palavra de Deus (Tg.1:21-25), que é a verdade (Jo.17:17).
-Por isso, a Igreja é a coluna e firmeza da verdade (I Tm.3:15) e seus membros em particular, portanto, têm compromisso com a verdade, verdade esta que não muda e é única.
-O episódio de Ananias e Safira mostram este compromisso que a Igreja tem com a verdade. O casal havia criado um estratagema para a sua vanglória, movidos que estavam pela inveja, mas, como tudo que é feito sem Deus, tinha por respaldo a mentira.
-A mentira é algo completamente alheio a Deus. Jesus disse que o pai da mentira é o diabo (Jo.8:44), a mostrar que se trata de uma deficiência, de uma falta que surgiu quando o pecado se tornou uma realidade, quando da rebelião do querubim ungido (Ez.28:15).
-O Senhor Jesus disse que, no diabo, não há verdade alguma e que, quando ele mente, faz aquilo que lhe é próprio, porque é mentiroso (Jo.8:44).
-A mentira é, pois, um dos mais proeminentes do pecado, porque é um traço do caráter do diabo, sendo, portanto, uma atitude essencialmente diabólica e, como tal, que nada tem de Cristo (Jo.14:30).
-A Igreja tem de andar na verdade (II Jo.4; III Jo.3,4), porque a sua cabeça é Cristo (Ef.1:22; 5:23), que é a verdade (Jo.14:6).
-Ananias e Safira abandonaram a verdade e quiseram não só servir a Deus mas ter proeminência na igreja local com base na mentira e, bem por isso, o apóstolo Pedro disse a Ananias que Satanás havia enchido o seu coração, porque, quando abrimos mão da verdade e acolhemos a mentira, estamos a acolher o próprio diabo, que é o pai da mentira.
-A morte de Ananias e Safira serviu de exemplo a todos os cristãos de que o Senhor não admite que a mentira seja o fator orientador da conduta dos discípulos nem algo que exista na igreja local.
-O Senhor deixou bem claro que não só a prática da mentira, mas o amor a ela fará com que as pessoas fiquem de fora da cidade santa (Ap.22:15), a nos mostrar como se trata de um pecado extremamente grave e que causa a imediata exclusão do corpo de Cristo.
-A mentira sempre foi uma poderosa arma satânica para trazer morte espiritual aos discípulos de Jesus, mas, nestes dias que antecedem o arrebatamento da Igreja, tem sido algo que tem alcançado muita guarida entre os que cristãos se dizem ser.
-Estamos no princípio das dores (Mt.24:8), tempos em que o engano é a maior estratégia do adversário de nossas almas (Mt.24:4), com proliferação de falsos mestres (II Pe.2:1,2), falsos cristos e falsos profetas (Mt.24:24).
-Suas mentiras estão a encantar muitos, que, por amarem as suas concupiscências, passaram a segui-los, desviando os ouvidos da verdade (II Tm.4:3,4).
-Devemos, porém, cingirmo-nos da verdade (Ef.6:14), andarmos na verdade, não amando nem cometendo a mentira, agradando a Deus, que é a verdade (Jr.10:10), e isto implica em observarmos e cumprirmos as Sagradas Escrituras, bem como em seguirmos a direção do Espírito Santo, pois o Espírito é a verdade (I Jo.5:6).
-A igreja local em Jerusalém, como modelo de igreja local para toda a Cristandade, de todos os tempos, precisava demonstrar que não permitia a mentira em seu meio e, por isso, ocorreu a morte física de Ananias e Safira.
-Em nossos dias, não há todas as vezes em que se pratica a mentira a morte física dos mentirosos, que, cedo ou tarde, porém, continuam a ser revelados em sua hipocrisia (Mt.10:26; Mc.4:22: Lc.12:2), já que o Espírito Santo, o nosso Guia em toda a verdade (Jo.16:13), como Deus que é, vela pela Sua Palavra para a cumprir (Jr.1:12).
-Aliás, vemos que a ação do Espírito Santo com a morte física de Ananias e Safira, trouxe temor não só a toda a membresia mas a todos quantos souberam do acontecimento (At.5:11), temor este que nada mais é que o aperfeiçoamento da santificação (II Co.7:1).
-Numa igreja fervorosa, como era a igreja em Jerusalém, a mentira não encontrava guarida, não se dava lugar ao diabo (Ef.4:27) e, por isso, tudo era prontamente revelado. Em nossos dias, em muitos lugares, não temos mais este mesmo fervor e, por isso, por vezes, a revelação demora a ocorrer, mas virá, disto não tenhamos dúvida, pois, além de ser o que dizem as Escrituras, a mentira não se sustenta, é inferior à verdade e, como certa feita afirmou o presidente americano Abraham Lincoln (1809-1865):
“Você pode conseguir enganar muitos por pouco tempo. Ou enganar poucos por muito tempo. O que você nunca vai conseguir é: enganar a todos todo tempo”.
– Andemos na verdade se quisermos pertencer ao corpo de Cristo, à igreja universal. Andemos na verdade, pois a igreja local, como segmento visível da igreja universal, não pode conviver com a mentira.
Pr. Caramuru Afonso Francisco
Fonte: https://www.portalebd.org.br/classes/adultos/11631-licao-6-uma-igreja-nao-conivente-com-a-mentira-i


