INTRODUÇÃO
– Concluindo o estudo da igreja em Jerusalém, estudaremos a “assembleia” ou “concílio” de Jerusalém
ocorrido no ano 50.
– Foi na igreja em Jerusalém que os cristãos se libertaram do judaísmo.
I – A NECESSIDADE DO CONCÍLIO
– Lucas, no livro de Atos, bem demonstra, desde o seu início, que uma mentalidade judaizante dominava os discípulos de Cristo Jesus.
– A própria questão levantada por eles, antes da ascensão, a respeito da restauração do reino a Israel (At.1:6), bem demonstra como os discípulos ainda não haviam se conscientizado de que a obra da Igreja visava todas as nações da Terra (At.1:8).
– A própria escolha de Matias, com a devida “venia” das opiniões contrárias, revelava este pensamento judaico, visto que a “necessidade” de haver doze apóstolos para o revestimento de poder somente se podia explicar pela esperança decorrente da promessa de Cristo de que os apóstolos haveriam de julgar as doze tribos de Israel (Mt.19:28; Lc.22:30).
– A presença desta mentalidade judaica entre os discípulos é perfeitamente compreensível, visto que todo ser humano é formado dentro de uma determinada cultura, da qual não tem condições de se desprender facilmente, desprendimento, ademais, que jamais é total.
– Ao longo dos anos, o Senhor Jesus foi mostrando à Igreja essa necessidade de o Evangelho atingir todas as nações, independentemente da cultura, disposição divina que encontrava, porém, séria resistência por parte dos salvos que, inclusive, pregavam a Palavra somente aos judeus (At.11:19).
– O episódio ocorrido na casa de Cornélio, como vimos em lição anterior, mudou, porém, o parecer do apóstolo Pedro e de outros irmãos, não só em Jerusalém (At.11:1,18) mas também entre os dispersos, tanto que, a partir daí, surgiu a primeira igreja gentílica, em Antioquia (At.11:20-24), onde, por sinal, os discípulos foram, pela primeira vez, chamados “cristãos” (At.11:26).
– O ingresso dos gentios na Igreja e a sua identificação, doravante, como “cristãos” e não mais como “a seita dos nazarenos” (At.24:5), mostrava claramente que a Igreja deixava de ser apenas um novo grupo religioso
judeu, que viria se somar aos já existentes saduceus, fariseus, essênios e zelotes, para ser um novo povo, distinto tanto de judeus quanto de gentios (I Co.10:32).
– Flávio Josefo (37-100), ao escrever suas Antiguidades Judaicas, bem demonstra isto, ao considerar que, entre os judeus, havia quatro seitas na época em que foi o templo destruído, o que serve de reconhecimento que, já no seu tempo, por volta do ano 60, os judeus já não mais consideravam os cristãos (ou “nazarenos”) como um grupo judaico.
OBS: Eis o trecho da obra de Josefo: “…Entre os judeus, os que faziam profissão particular de sabedoria estavam, há vários séculos, divididos em três seitas: os essênios, os saduceus e os fariseus, (…) Judas, de quem acabamos de falar, foi o fundador da quarta seita [a dos zelotes, observação nossa] …” (Antiguidades Judaicas XVIII, 2. 760. In: História dos hebreus. Trad. Vicente Pedroso, v.2, pp.153-4).
– A presença de gentios na Igreja veio trazer a questão que, até então, não era enfrentada pelos discípulos, a saber: a observância dos mandamentos da lei de Moisés.
– Até então, os salvos, apesar de crerem em Jesus Cristo como seu único e suficiente Salvador, continuavam a observar a lei. Reuniam-se nas casas (já que no templo não mais o faziam, ante a perseguição) como também iam à sinagoga, circuncidavam seus filhos, como também participavam das festividades judaicas, como qualquer judeu, até porque Jesus o fizera durante todo o Seu ministério terreno.
– A conversão de gentios, porém, trouxe uma questão para os discípulos: deveriam os gentios se submeter à lei de Moisés, ou não?
Deveriam, assim como os crentes judeus, também se circuncidar, adotar a dieta judaica, participar das festividades dos judeus? Afinal de contas, os gentios que se tornavam adeptos do judaísmo, os chamados “prosélitos”, assim procediam. Por que não, pois, os gentios que abraçavam a fé?
– Barnabé, mandado que foi para Antioquia pelos apóstolos (At.11:22), bem compreendeu que, na Igreja, estávamos debaixo da graça de Deus e que, portanto, não se estava debaixo da lei de Moisés, tendo, ao ver que a graça de Deus estava presente entre os crentes de Antioquia, somente exortado os salvos a que “permanecessem no Senhor com propósito do coração” (At.11:23).
– Incontinenti, Barnabé trouxe de Tarso a Saulo que, durante um ano, ensinou a Palavra de Deus aos crentes de Antioquia. Saulo, durante o tempo em que estivera em Tarso, fora instruído pelo Senhor a respeito do tema, tendo compreendido que, agora, estávamos a viver um novo tempo em que a lei não mais era exigível dos que serviam a Cristo Jesus.
– Entretanto, não eram poucos os que, em Jerusalém, entendiam que os gentios, para ser salvos, tinham de se tornar, antes, judeus. Para eles não haveria salvação fora de Israel, fora da observância da lei e, por isso, logo passaram a persuadir os crentes gentios a adotarem a lei de Moisés, a começar pela circuncisão (At.15:1).
– Esta postura dos chamados “judaizantes” começou a trazer problemas no seio da Igreja, visto que, se de um lado Paulo e Barnabé (que, inclusive, passaram a abrir igrejas na Ásia Menor, pois haviam sido enviados pela igreja de Antioquia – At.13:2,3) defendiam que os gentios deviam tão somente servir a Jesus, abandonando a vida pecaminosa, sem que se tornassem judeus, estes outros iam até as igrejas recém-formadas e defendiam a necessidade de os crentes gentios se circundarem e adotarem a lei, sem o que não teriam garantida a sua salvação (At.15:1,5).
– A situação ficou insustentável, visto que havia um público embate, em cada igreja gentílica, entre Paulo e Barnabé e os judaizantes (Gl.1:6-8; 3:1-3). Era “uma não pequena discussão” que fez com que todos os envolvidos resolvessem subir a Jerusalém e, na presença dos apóstolos e dos anciãos, resolvessem essa questão (At.15:2).
– Diante de uma controvérsia doutrinária, que ameaçava a unidade da Igreja, bem como estava a prejudicar a pregação do Evangelho, os contendores resolveram dirimir a questão diante da Igreja, a fim de resolver a questão.
– Este gesto tanto dos judaizantes quanto de Paulo e de Barnabé mostra que, apesar da divergência e controvérsia entre eles, tinham todos um mesmo sentimento, qual seja, o de não prejudicar a obra de Deus, o de não permitir que as celeumas surgidas viessem a comprometer a salvação das almas.
– Diante da controvérsia, os contendores decidiram que o melhor seria resolver a questão, pôr fim à controvérsia, mediante deliberação da liderança da igreja, os apóstolos e anciãos que se encontravam em Jerusalém.
– Este é o procedimento que deve ter os salvos em Cristo Jesus: quaisquer controvérsias, discussões, diferenças devem ser resolvidas pela liderança da Igreja, para que não haja motivo para escândalos e dissensões.
– Não é bom que haja controvérsias entre crentes, mas, como somos seres humanos, tais situações são inevitáveis. Havendo discussão, devem elas ser dirimidas dentro da Igreja (I Co.6:1-9), para que não se promova o escândalo e a consequente perda de credibilidade diante de judeus e de gentios (I Co.10:32).
– Quando somos guiados pelo amor a Deus e pelo amor ao próximo, assim procedemos, como os discípulos que foram a Jerusalém para resolver suas diferenças.
– Atualmente, porém, com pesar, vemos que há uma obstinação, inclusive em quem deseja a liderança (demonstrando, assim, sua incapacidade para tanto), que não só não busca resolver as diferenças dentro da Igreja como leva as questões e divergências para o conhecimento de toda a sociedade, numa vitimização que, no entanto, só contribui para o escândalo e para a perda da credibilidade da Igreja do Senhor. Não nos portemos desta maneira, bem como fujamos dos que assim se comportam!
– Diante do impasse, Paulo e Barnabé, de um lado, e os judaizantes, do outro, foram para Jerusalém, a fim de que a Igreja, reunida, resolvesse a questão. Paulo e Barnabé, no caminho a Jerusalém, foram acompanhados pela igreja, passando pela Fenícia e Samaria e contando a conversão dos gentios, dando grande alegria a todos os irmãos (At.15:3).
– Apesar da divergência existente, Paulo e Barnabé, no caminho para Jerusalém, não procuraram arrebanhar adeptos, nem tampouco “cabalar votos”. Muito pelo contrário, apenas falavam aos crentes a respeito da conversão dos gentios, circunstância consensual entre eles e os judaizantes.
– Os judaizantes, embora quisessem que os gentios se submetessem à lei de Moisés, já haviam admitido a conversão dos gentios, já haviam compreendido que o Evangelho também havia sido dado aos gentios para arrependimento para a vida. Falar da conversão dos gentios, pois, era falar de algo que era consensual, que unia a todos os contendores.
– Como seria bom que, em meio a controvérsias e divergências, enquanto elas não fossem dirimidas, falássemos para a Igreja somente aquilo que nos une, que nos mantém a uma só voz.
– Em vez de tentarmos convencer o povo de Deus a respeito de nosso ponto-de-vista a respeito de um determinado tema doutrinário que é controverso, que está a gerar discussão, falássemos de todos os demais pontos onde temos um mesmo parecer, um mesmo entendimento.
– Afinal de contas, pregamos para salvação das almas ou para nossa exaltação? Ensinamos para crescimento espiritual dos crentes ou para gerarmos seguidores de nossas ideias?
– Ao chegarem a Jerusalém, Paulo e Barnabé foram recebidos pela igreja, pelos apóstolos e pelos anciãos, tendo, então, repetido o discurso de anúncio da conversão dos gentios, a demonstrar que preferiam falar daquilo que os unia aos seus contendores.
– No entanto, os judaizantes que estavam em Jerusalém aproveitaram a ocasião para expressar a sua divergência, dizendo da necessidade que havia de que fossem os gentios circuncidados e que guardassem a lei de Moisés (At.15:4,5).
– É interessante observar que Lucas denomina estes judaizantes de “fariseus que tinham crido”. Apesar de terem crido em Jesus, eles não haviam perdido a sua condição de “fariseus”.
– Eis o primeiro motivo para que procedessem daquela maneira: eram crentes, mas não tinham deixado de ser
“fariseus”. Não haviam se tornado ainda em “novas criaturas”, mas ainda se identificavam como “fariseus”.
– Quando recebemos a Cristo, tornamo-nos “novas criaturas” e, deste modo, as coisas velhas passaram, tudo se fez novo (II Co.5:17).
Não podemos mais nos portar como pessoas que se identificam pelas filiações religiosas passadas, não podemos mais nos guiar pelas tradições que recebemos de nossos pais, temos de abandonar aquela “vã maneira de viver” (I Pe.1:18). O que tem virtude, em Cristo Jesus, é o ser uma nova criatura (Gl.6:15).
– Naturalmente que não estamos a dizer que, por ser salvo, a pessoa tem de abandonar toda a sua formação, toda a sua cultura. Jesus nos ensinou que continuamos a viver no mundo, embora dele não mais sejamos (Jo.17:11,14).
– O que estamos a dizer é que o salvo passa a ser uma nova criatura e, como tal, não está mais sob o domínio do pecado, devendo, pois, ter um modo de viver diferente, que exclua todos os elementos pecaminosos da sua conduta anterior à conversão.
– Aqui, a identificação destes judaizantes como “fariseus” demonstrava que, apesar de sua crença em Jesus como o Messias, não havia, ainda, um completo desprendimento da “vã maneira de viver que, por tradição, recebestes de vossos pais” (I Pe.1:18) e, por causa desta tradição, estavam a exigir que os gentios convertidos ao Evangelho fossem obrigados a se circuncidar e a guardar a lei de Moisés, sufocando, pois, a Palavra de Deus.
Este é o ponto em que deve haver uma ruptura entre o salvo e a tradição recebida: quando a tradição invalida o mandamento de Deus (Mt.15:6).
– A tradição, entendida como a “herança cultural, legado de crenças, técnicas etc. de uma geração para outra, o conjunto dos valores morais, espirituais etc., transmitidos de geração em geração”, é inevitável na vida do ser humano, pois somos seres sociais e, em todo grupo social, cria-se uma maneira de viver.
– Todavia, uma vez restabelecida nossa comunhão com Deus pela salvação em Cristo Jesus, este modo de vida sofre uma modificação, pois não pode mais contrariar a santidade obtida pela regeneração.
OBS: A palavra grega para tradição é “parádosis” (παραδοσις), cujo significado é “presente, dom ao lado”, ou seja, algo que nos é dado juntamente com a nossa existência.
– Os “fariseus que tinham crido”, porém, não tinham se tornado “novas criaturas”, pois ainda punham a lei de
Moisés como requisito para a salvação, quando, na verdade, o Salvador era Jesus.
– A fé em Cristo Jesus, como bem esclarecia Paulo, era o único requisito para se tornar salvo, não mais tendo qualquer repercussão na comunhão com Deus os requisitos exigidos pela lei mosaica, que, cumprida em Cristo, não era mais o parâmetro para se pertencer ao povo de Deus.
– O modo de viver assumido pelo salvo não pode, de forma alguma, desmerecer a salvação em Cristo Jesus. Há uma ruptura do salvo com o pecado, com o mundo e, por isso, tudo quanto havia recebido de seus pais que conflita com esta salvação, com este rompimento deve ser extirpado da maneira de viver.
– A lei mosaica tornara-se, com a morte e ressurreição de Cristo, um obstáculo para a salvação, pois, em Cristo, a lei havia se cumprido e não poderia mais ser observada. Desta forma, não poderia ser exigido que alguém primeiro cumprisse a lei para ser salvo.
II – O CONCÍLIO PROPRIAMENTE DITO
– Diante da controvérsia criada pelos “fariseus que tinham crido”, resolveu-se congregar os apóstolos e os anciãos para considerar este assunto (At.15:6).
Esta “congregação”, ou seja, “reunião” (em grego “synagogé” – συναγωγή) foi denominada, em latim, “concilium”, nome pelo qual ficaram conhecidas, ao longo da história da Igreja, as reuniões pelas quais se resolviam controvérsias surgidas no seio do povo de Deus.
– Este primeiro concílio da Igreja teve lugar em Jerusalém, a sede da igreja, onde estavam os apóstolos, a liderança principal da Igreja, que, no entanto, não se arvoraram em “donos da verdade”, mas, antes, chamaram também os anciãos, ou seja, as pessoas que estavam à frente do rebanho, devidamente constituídos pelos apóstolos.
– Estes anciãos (em grego, “presbíteros”), juntamente com os apóstolos trataram da questão. Nos concílios, pois, devem participar os “ministros”, ou seja, aqueles que foram separados para servir o povo de Deus.
– Notamos, de pronto, que não havia, na igreja em Jerusalém, um “chefe”, uma “cabeça visível”. A reunião
fora convocada pelos apóstolos e chamados os anciãos para, juntamente com eles, dirimir a questão.
– Inexiste, pois, qualquer base para que se tenha um “Papado”, alguém que “esteja no lugar de Cristo” (“vigário de Cristo”) a presidir a Igreja enquanto Jesus não volta.
– No concílio de Jerusalém, aliás, vemos claramente que não havia ninguém acima dos outros. O texto sagrado diz que Pedro, após se instaurar uma grande contenda, fez uso da palavra, palavra, aliás, que não foi decisiva. Pedro não exerceu qualquer “magistério”, nem a sua suposta “cátedra” para, em matéria de fé, resolver a questão.
– A reunião, entendemos, foi presidida por Tiago, que, este sim, tomou a palavra e falou por fim, como costumavam fazer os que presidiam reuniões desta natureza (At.15:1), Tiago, o irmão do Senhor, que, a esta altura, já era o pastor da igreja em Jerusalém (Pedro se ausentara de Jerusalém após ter sido libertado pelo Senhor das mãos de Herodes Agripa I – At.12:17 – ocasião em que praticamente indicou Tiago para cuidar da igreja em Jerusalém).
– Pedro fez uso da Palavra, pois ele fora questionado pelos irmãos em Jerusalém quando batizara nas águas Cornélio e os seus, os primeiros gentios totalmente descompromissados com o judaísmo a se converterem ao Evangelho.
– Assim, ninguém mais abalizado para cuidar do caso senão o próprio apóstolo que, por ser judeu e ter seu ministério voltado para os judeus, era pessoa insuspeita e imparcial para defender a real posição a respeito do assunto (At.15:7-10).
– Pedro tomou o partido de Paulo e de Barnabé, mostrando aos presentes que a salvação se dava pela fé em Jesus, não fazendo diferença entre judeus e gentios, mas, pela fé, purificando os seus corações, a ponto de, inclusive, batizá-los com o Espírito Santo (At.15:7-10). A salvação dava-se pela graça do Senhor Jesus Cristo, tanto para judeus quanto para gentios (At.15:11).
– Ante o testemunho de Pedro, a multidão se calou e Paulo e Barnabé passaram a contar quão grandes sinais e prodígios, Deus havia feito por meio deles entre os gentios.
– Aí, então, Tiago, que presidia a reunião, tomou a palavra, visto que não mais debates havia, endossando o pensamento apresentado por Pedro, inclusive mostrando nas Escrituras, no livro de Amós (Am.9:11,12), que o que havia ocorrido na casa de Cornélio era o cumprimento da promessa da reedificação do tabernáculo de Davi, tabernáculo este que teria a presença tanto de judeus quanto de gentios.
– Com a reedificação do tabernáculo de Davi, tanto com judeus quanto com gentios, Tiago disse que não se deveriam perturbar os gentios que se convertiam ao Senhor, mas tão somente dizer-lhes que deveriam se abster das contaminações dos ídolos, da prostituição, do que é sufocado e do sangue (At.15:19,20).
– Tais proibições não eram inovações nem tampouco resquícios de judaísmo, mas repetiam o que o próprio Deus havia determinado a Noé após o dilúvio, constituindo o que os judeus denominam de “os Sete Preceitos dos Descendentes de Noé”, a saber: praticar a equidade, não blasfemar o nome de Deus, não praticar a idolatria, imoralidades, assassinatos e roubos e não tirar e comer o membro de um animal estando ele vivo (Gn.9:1-16).
– Segundo os doutores da lei, o que é confirmado no Talmude (Tratado Sanhedrin 56), o segundo livro sagrado do judaísmo, entende-se que a lei mosaica foi apenas um acréscimo a estes sete mandamentos, acréscimo este feito em Mara, exclusivamente para Israel (Ex.15:25 – estatutos e uma ordenança, que teriam sido o sábado, a honra a pai e mãe e as leis sociais).
OBS: Eis o trecho mencionado do Talmude: “…Os Sábios ensinaram em uma baraita [tradição ensinada pelos doutores da lei, observação nossa]:
Os descendentes de Noé, ou seja, toda a humanidade, foram ordenados a observar sete mitzvot [mandamentos, observação nossa]: A mitzvá de estabelecer tribunais de julgamento; e a proibição de abençoar, ou seja, amaldiçoar, o nome de Deus; e a proibição da adoração de ídolos; e a proibição de relações sexuais proibidas; e a proibição de derramamento de sangue; e a proibição de roubo; e a proibição de comer um membro de um animal vivo. …” (Sanhedrin 56a. Disponível em:
https://www.sefaria.org/Sanhedrin.56a.24?lang=bi&with=all&lang2=en Acesso em 16 maio 2025) (tradução do inglês pelo Tradutor Google).
– Tiago revelava, assim, que entendera, pelo Espírito Santo, que a “reedificação do tabernáculo de Davi”, a “restituição do reino” não se dava a Israel, num aspecto político, mas, sim, tanto a judeus quanto a gentios, num “reino que não era deste mundo”, onde houvesse “busca ao Senhor que faz todas as coisas, conhecidas desde a eternidade”.
Moisés e sua lei eram pregados aos judeus, lido nas sinagogas todos os sábados e nada haveria que ligá-lo aos gentios convertidos a Deus (At.15:21).
– Tiago mostrava, assim, que, embora os gentios não estivessem debaixo da lei de Moisés, isto não significava, em absoluto, que seu modo de viver deveria também se submeter às suas tradições.
– Tanto quanto a tradição judaica, as tradições dos gentios deveriam se submeter ao senhorio divino e, portanto, os preceitos estatuídos por Deus a todas as nações, pelo chamado “pacto noaico” ou “os sete preceitos dos descendentes de Noé”, deveriam ser observados pelos gentios, uma vez sendo salvos pela fé em Cristo Jesus.
– A proposta de Tiago foi, então, aceita, pois os apóstolos e os anciãos entenderam que se tratava de algo proveniente da parte de Deus.
Na carta que escreveram às igrejas, dando notícia do que havia sido deliberado, fizeram questão de dizer que “pareceu bem ao Espírito Santo e a nós não vos impor mais encargo algum, senão estas coisas necessárias” (At.15:28).
– O concílio não foi presidido por homens, mas, sim, pelo Espírito Santo. Se Tiago, como entendemos, era aquele que dirigia os trabalhos, todos estavam sob a direção e orientação do Espírito Santo.
– Num concílio, não devemos jamais nos esquecer de que a cabeça da Igreja é Jesus Cristo e que Aquele que
O glorifica, que é o seu “vigário” é o Espírito Santo, jamais qualquer homem.
– A Igreja é o “corpo de Cristo” (I Co.12:27). Cada crente é “templo do Espírito Santo” (I Co.6:19), de modo que, para que a vontade de Deus prevaleça, para que Deus decida que rumo tomar diante de uma controvérsia, tem-se a necessidade, mesmo, da reunião da Igreja, pois, quando a Igreja se reúne em nome de Jesus, ali o Senhor está no meio (Mt.18:20).
– Os israelitas já consideravam que, uma vez reunidos, o Senhor Se fazia presente no meio deles, tanto que, em diversas ocasiões, máxime nas dificuldades, o povo todo se reunia a fim de ter uma orientação divina ou receber de Deus um favor (I Cr.28, 29; II Cr.5:2,3; 15:9-15; 20:3-18; 29:11-27; 34:29-33).
– Ora, se isto ocorria quando se estava diante de um povo que não tinha o Espírito Santo derramado e presente em cada pessoa, por que a Igreja deixa de se reunir para dirimir suas controvérsias?
– Não nos esqueçamos de uma máxima constante do Talmude (o segundo livro do judaísmo): “Toda assembleia reunida em nome do Céu, subsistirá e a que não for em nome do Céu, não subsistirá” (Pirke Avot 4:14). Como fazer de nossa igreja local uma verdadeira Igreja, que subsiste por ser parte do corpo de Cristo, se ela não se reunir em nome do Céu?
– Conquanto os apóstolos e os anciãos tenham sido chamados para resolver a questão, vemos que, no momento da eleição daqueles que deveriam levar as cartas para todas as igrejas locais, dando notícia do que havia sido decidido, houve a participação de toda a igreja (At.15:22), num indício de que todos participaram daquele evento, ainda que não tivessem todos, provavelmente, o direito de usar da palavra. Tanto assim é que a carta tem como remetentes não só os apóstolos e os anciãos, mas, também, os irmãos da igreja em Jerusalém (At.15:23).
– Esta participação ativa da Igreja é muito importante, porquanto mostra que, embora haja as lideranças, estas não impõem a vontade ao restante dos crentes, como também a reunião nos traz a presença do Espírito Santo.
Muitos concílios não decidem bem porque ali prevalece a vontade do homem, não se importando em saber qual é o “parecer do Espírito Santo”. Que em toda a reunião da Igreja, haja a disposição de se buscar ao Senhor, de saber qual é o Seu parecer, qual é a Sua vontade.
– Não se está a defender aqui a “democracia” como regime de governo da Igreja, pois, na Igreja, o regime é a “teocracia”, ou seja, quem deve reinar é o Senhor Jesus, através de Seu vigário, o Espírito Santo.
– No entanto, para que Jesus Se faça presente, para que o Espírito Santo seja ouvido, mister se faz que os crentes estejam reunidos em nome de Jesus. Sem que busquemos a presença do Senhor, sem que nos submetamos à Sua vontade, em oração e súplicas, jamais um concílio poderá traduzir a vontade do Senhor. Foi o que fizeram os crentes em Jerusalém.
– Além da oração, os integrantes de um concílio têm de buscar a direção nas Escrituras, nossa única regra de fé e prática.
– Tiago baseou a sua proposta, conforme já dissemos, no livro de Amós, dando uma interpretação abalizada e consonante com a boa hermenêutica bíblica. A Bíblia Sagrada é a Palavra de Deus e nenhuma deliberação pode prescindir da concordância com as Escrituras.
– Por isso, não podemos construir uma “tradição” com base em concílios se essa “tradição” não estiver de
acordo com as Escrituras.
– Assim como a tradição judaica e as tradições gentílicas não poderiam invalidar a Palavra de Deus, também a “tradição da Igreja” não pode se sobrepor aos mandamentos bíblicos. Sempre que a “tradição” foi equiparada às Escrituras tivemos apostasia da fé. Tomemos cuidado!
– A participação ativa de toda a igreja em Jerusalém também conferiu à deliberação legitimidade. “Legitimidade”, “…em Ciência Política, é conceito com o qual se julga a capacidade de um determinado poder para conseguir obediência sem necessidade de recorrer à coacção que supõe a ameaça da força, de tal forma que um Estado é legítimo se existe um consenso entre os membros da comunidade política para aceitar a autoridade vigente…” (WIKIPÉDIA. Legitimidade. Disponível em:
http://pt.wikipedia.org/wiki/Legitimidade Acesso em 27 jan. 2011). Como todos participaram da deliberação, todos se sentiram impulsionados a aceitar a decisão, até porque perceberam, na participação, que a mesma provinha da parte de Deus.
– Muitos, na atualidade, por não atentarem a esta circunstância, em vez de dirimirem controvérsias e questões no meio do povo, acabam tendo a resistência na aceitação do que foi decidido, visto que não houve participação por parte dos irmãos, que, deste modo, não se sentem compelidos a acatar o decidido, gerando ainda mais controvérsias e questões que, não raro, geram divisões e imensos prejuízos à obra de Deus.
– Não foi o que ocorreu em Jerusalém. Diante da participação ativa de todos e da deliberação tomada, foram enviadas cartas às igrejas locais, a fim de que ficasse bem claro que a lei de Moisés não podia ser imposta aos crentes gentios, que deveriam tão somente se abster das coisas sacrificadas aos ídolos, do sangue, da carne sufocada e da fornicação (At.15:28,29).
– A participação ativa de toda a igreja permitiu que, nas cartas mandadas às igrejas gentílicas, fosse esclarecido que os judaizantes que haviam descido da Judeia, tinham-no feito por conta própria, sem qualquer ordem dos apóstolos e anciãos, sendo considerados como “perturbadores com palavras” e “transtornadores de almas” (At.15:24).
– Daí a importância de exigirmos de quem se apresentar em nossa igreja local a devida autorização do seu líder para fazer o que está a fazer. Indispensável que as pessoas que tenham a palavra em nossas reuniões sejam pessoas devidamente credenciadas pela sua igreja, sob pena de expormos o povo de Deus a “perturbadores” e “transtornadores”. Tomemos cuidado, amados irmãos!
– Assim como houve ampla participação na igreja em Jerusalém para a deliberação, também, em Antioquia, houve ampla divulgação do que foi deliberado. A carta foi entregue com a igreja reunida, havendo a leitura para toda a igreja (At.15:30,31).
– Há muito pouca divulgação do que é decidido nas reuniões de liderança em nossos dias, num total alheamento que gera, inevitavelmente, uma conduta completamente à margem do deliberado, do decidido.
– As Assembleias de Deus vivem uma crise de identidade que, entre outras razões, resulta do total desconhecimento, por parte dos crentes, do que é e foi decidido nas reuniões das lideranças, nas convenções, nas reuniões de obreiros, nas escolas bíblicas.
– De pouco adianta a publicação no órgão oficial da Igreja, o Mensageiro da Paz, que é tão pouco lido. É necessário seguirmos o exemplo bíblico e dar ampla repercussão ao que se decidiu e, mesmo, participação ativa de todos debates e discussões, meses antes da própria reunião, o que é perfeitamente possível diante dos meios de que hoje dispomos (internet, televisão, rádio etc.).
– Ao terem notícia de que não precisariam se submeter à lei de Moisés, os salvos gentios se alegraram, tendo o Espírito Santo confirmado o teor da carta na medida em que os dons espirituais se manifestaram, visto que Judas e Silas, que haviam sido eleitos para levar a carta, eram profetas e foram usados em profecia para exortar e confirmar os irmãos com muitas palavras (At.15:32).
– Silas, inclusive, não retornou para Jerusalém, ficando em Antioquia (At.15:34), decisão que já estava no plano divino para a segunda viagem missionária de Paulo, já que Silas seria o companheiro de Paulo que se separaria de Barnabé naqueles dias.
III – AS DELIBERAÇÕES DO CONCÍLIO
– Como temos já verificado, o concílio de Jerusalém enfrentou a questão a respeito da observância, ou não, da lei de Moisés como requisito para a salvação.
– Deveriam os gentios se tornar judeus para ser salvos? A resposta foi decididamente negativa: os gentios eram salvos pela fé mediante a graça do Senhor Jesus Cristo e, por isso, não tinham qualquer necessidade de guardar a lei mosaica. O tabernáculo de Davi reedificado continha tanto judeus quanto gentios, ambos sendo salvos pela graça, não pela lei.
– Esta deliberação significou o rompimento dos cristãos com o judaísmo, na medida em que a Igreja se reconhecia como estando debaixo da graça, não tendo de observar a lei de Moisés, algo que os judeus jamais admitiram e somente o farão quando estiverem a ponto de ser destruídos na batalha do Armagedom.
– Estas deliberações do concílio de Jerusalém devem ser observadas pela Igreja, porquanto não se tratou de uma decisão válida apenas para aquela época, mas é o “parecer do Espírito Santo” a respeito da questão da lei, tanto que foi inserida num texto da Bíblia Sagrada, demonstrando ser a Palavra de Deus e, como tal, obrigatoriamente observada pelos salvos em Cristo Jesus em todos os tempos.
– Não se pode, pois, alegar que as deliberações ali constantes tenham preceitos válidos apenas para aquela
época ou que se tratava de uma “decisão cultural”, como alguns, inadvertidamente, têm sustentado.
– Aquelas deliberações resultaram da comunhão da igreja com o Espírito Santo, são autoritárias e têm de ser observadas por todos os salvos em Cristo Jesus. São a própria “lei de Cristo” de que fala o apóstolo Paulo em I Co.9:21.
– A primeira deliberação manda que os crentes gentios se abstivessem das coisas sacrificadas aos ídolos. Esta abstenção será bem explanada pelo apóstolo Paulo alguns anos depois (entende-se que o concílio se deu em 48 e Paulo escreveu sua primeira carta aos coríntios por volta de 56) quando escreveu a primeira carta à igreja em Corinto.
– Os crentes gentios não deviam comer das coisas sacrificadas aos ídolos por dois motivos principais, a saber: a idolatria é proibida a todos os homens e a ingestão de coisas sacrificadas aos ídolos é parte da adoração a estes mesmos ídolos.
– Em sua carta, Paulo, que como principal defensor da não-submissão dos gentios à lei de Moisés é pessoa insuspeita de judaísmo neste tópico, nos ensina que, apesar de o ídolo nada ser no mundo, é verdadeiro instrumento para a manifestação de demônios (I Co.10:19,20), até porque a idolatria é um pecado que resulta da rejeição a Deus e consequente escravização por parte do diabo daquele que passa a ter uma vida de pecado (Gn.10:8-10; Rm.1:21-23).
– A idolatria surgiu em Babel, com Ninrode, o primeiro governante a se divinizar, Babel que é a comunidade única que deu origem a todas as nações da Terra.
– Ora, quem participa das coisas sacrificadas aos ídolos, está a participar da adoração aos ídolos, pois a adoração não envolve apenas o sacrifício propriamente dito, mas a ingestão daquilo que foi sacrificado, oferecido aos ídolos.
– A refeição segue-se ao sacrifício e é a continuidade do ato de adoração (Dt.12:11,17,18). A participação nas coisas sacrificadas aos ídolos, portanto, é participação na própria adoração aos ídolos e, assim, como diz o apóstolo Paulo, quem participa das coisas sacrificadas aos ídolos é participante da mesa dos demônios e, como tal, não pode, simultaneamente, participar da mesa do Senhor (I Co.10:20,21).
– A refeição nada mais é que a continuidade da adoração a Deus, tanto que, como já vimos neste trimestre letivo, quando falamos sobre o sentido da expressão “partir do pão”, não há como dissociar a refeição, o comer e beber do próprio ato de adoração a Deus.
– Após os sacríficios, na lei mosaica, seguiam-se as refeições, seja por parte dos sacerdotes, seja por parte dos demais israelitas (Lv.7:15-18; Ne.8:9-12).
– Tanto assim é que o filho rebelde e contumaz é chamado de “comilão e beberrão” (Dt.21:20), ou seja, pessoa que participa de comunhão com quem não é do povo de Deus e, por isso, infringe os mandamentos. O próprio Jesus compara o mau servo, aquele que não fica atento à volta do Senhor, com os que “bebem e comem com os temulentos (i.e., os beberrões, os ébrios)’ (Mt.24:49).
– O verdadeiro e genuíno salvo em Cristo Jesus, portanto, não participa das coisas sacrificadas aos ídolos, pois não é idólatra, não participa da “mesa dos demônios”.
Lamentavelmente, não são poucos os que não observam esta regra e, por exemplo, participam daquilo que se oferece em festas juninas ou outras festas religiosas, em quermesses, bem como em festas beneficentes promovidas por entidades religiosas, eventos em que se louvam e se glorificam a ídolos, sejam eles “santos”, “beatos”, “orixás”, “espíritos-guias” etc.
– Não nos esqueçamos, também, das comidas constantes de estabelecimentos comerciais que são dedicados a ídolos, muitas vezes de forma acintosa, pois os demônios e ídolos se encontram nos próprios estabelecimentos, muitas vezes ali apresentados como “peças ornamentais”, “imagens folclóricas” e coisas desta natureza. Tomemos cuidado, pois são lugares dedicados e oferecidos a demônios e tudo quanto ali se produzir é sacrificado ao ídolo.
– A segunda deliberação manda se abster do sangue. A proibição de alimentação de sangue vem do “pacto noaico”, extensivo a toda a humanidade (Gn.9:4). Trata-se, pois, de uma vedação dietética a todos os homens, tanto judeus quanto gentios.
– Nesta vedação dietética, pois, não há qualquer resquício de judaísmo nem se tem qualquer abertura para se mandar adotar a dieta da lei de Moisés. Não se pode ingerir sangue e toda e qualquer comida que tiver sangue não deve ser consumida por um cristão.
– Lamentavelmente, muitos, também, não observam esta regra. Toda e qualquer comida que contiver sangue (o “molho pardo”; “chouriço de sangue” ou “chouriço mouro”; “sarapatel”) é vedado ao salvo em Cristo Jesus. OBS: As “carnes mal passadas” não têm sangue, pois aquele líquido vermelho é “mioglobina”. O sangue é retirado da carne durante o abate e o processo de limpeza.
– Muitos especulam do porquê desta proibição, questão que não se deve pôr pois não estamos aqui para discutir aquilo que Deus ordenou (Is.45:9).
Entretanto, a proibição de alimentação de sangue está vinculada ao fato de que o sangue significa vida e seu derramamento por Cristo nos trouxe a redenção, de forma que a não-ingestão de qualquer sangue é uma demonstração de que só o sangue de Cristo, simbolizado pelo vinho, pode adentrar em nosso organismo, de que só Cristo Jesus é o nosso único e suficiente Senhor e Salvador.
– A terceira deliberação diz respeito à abstenção da “carne sufocada”, como consta na Versão Almeida Revista e Corrigida, cuja expressão grega é “pnikton” (πνικτων), cujo significado é de “estrangulado, sufocado até a morte”, ou seja, carne de animais que fossem mortos sem derramamento de sangue.
– A proibição aqui envolve a mesma razão da abstenção do sangue — assim como não se pode comer o sangue propriamente dito, também não se pode comer a carne do animal cujo sangue não foi derramado após ou durante o abate, pois aí a carne conterá sangue.
– Não se tem aqui o mesmo rigor que há entre os judeus, cuja carne tem de ser “kosher”, “casher” ou “cashrut” (ַּכְשרּות), ou seja, além de não conter sangue (e por isso, “…antes da carne ser consumida, deve ser encharcada e salgada — mergulhada na água para livrá-la do sangue de forma adequada, e salgada com sal grosso para que todo ele seja absorvido pelo sal e drenado.…” – BLECH, Benjamin. Trad. de Uri Lam.
O mais completo guia sobre Judaísmo, pp.261-2), também exige que o animal seja abatido consoante disposições estatuídas pelos doutores da lei, o abate ritual judaico, a chamada “shechitá” (ְשִחיָטה), “…um procedimento desenvolvido para provocar um mínimo de sofrimento ao animal.
Requer uma lâmina perfeitamente afiada, livre do mais leve entalhe ou deformidade. A faca se move suavemente no ar e, numa fração de segundo, mergulha no animal, cortando a traqueia, o esôfago, os dois nervos vagos, as duas carótidas e as veias jugulares.…’ (BLECH, Benjamim. op.cit., p.261).
– A quarta deliberação é a abstenção da fornicação, palavra que, no original grego, é “porneia” (πορνεια), ou seja, toda e qualquer “impureza sexual” e não apenas, como sugere a tradução na Versão Almeida Revista e Corrigida, a manutenção de relações sexuais entre solteiros.
– Aqui temos, uma vez mais, um dispositivo que nos remete ao “pacto noaico”, onde se ordenou a frutificação e multiplicação a Noé e a seus filhos (Gn.9:1), numa clara indicação de que a reprodução somente seria possível no interior de famílias devidamente constituídas pelo casamento, daí porque terem sido salvos do dilúvio quatro casais de seres humanos (Noé e sua mulher, como também seus três filhos e respectivas mulheres – Gn.7:7).
– A prática de relações sexuais que não fosse por cônjuges unidos pelo casamento e entre si, portanto, encontra-se completamente fora da vontade de Deus, sendo, aliás, uma prática que caracterizou aqueles que foram submersos no dilúvio (Gn.6:2; Mt.24:38). A imoralidade sexual, aliás, é apontada como um degrau seguinte ao da idolatria na degradação da humanidade pelo pecado (Rm.1:24-26).
– Nos dias em que vivemos, porém, não são poucos os que não observam esta regra, vivendo uma vida de impureza sexual e querendo, inclusive, introduzir tal conduta no meio dos que cristãos se dizem ser.
– Muitos já têm admitido uniões sem casamento, sem falar na prática do sexo antes e fora do casamento de forma desregrada e descontrolada. Tomemos cuidado, pois tal conduta não é permitida a quem é salvo por Cristo Jesus.
– Paulo, também em sua primeira carta aos coríntios, esclarecerá esta proibição da fornicação, quando fala a respeito da prostituição e do casamento (I Co.6:12-7:40). O apóstolo ensina-nos que “o corpo não é para prostituição” e a palavra traduzida por “prostituição”, na Versão Almeida Revista e Corrigida, outra não é senão a mesma “porneia” da abstenção determinada no concílio de Jerusalém.
– O corpo do salvo é templo do Espírito Santo, diz-nos o apóstolo dos gentios (I Co.6:19), e, como tal, não pode se fazer um, ter comunhão com uma “meretriz”, ou seja, com uma “pornés” (πορνης), ou seja, com qualquer pessoa que participe de ato de impureza sexual e não apenas a que mercadeja o seu corpo, como somos tentados a pensar ao ler o texto.
– Nosso corpo é habitação, morada do Espírito Santo e, portanto, tem de estar isento, separado do pecado. Não temos como ter nossos corpos senão como instrumentos de justiça e, para tanto, jamais poderemos usar nosso corpo para a prática do pecado.
– O que se prostitui peca contra o seu próprio corpo (I Co.6:18), faz de seu corpo um instrumento de imundícia (Rm.6:19), mostrando, com o ato de impureza sexual, que ainda está a servir ao pecado (Rm.6:16).
– Com relação ao casamento, Paulo também nos esclarecerá que a união conjugal é necessária precisamente para evitar a prostituição, ou seja, somente se tem pureza sexual dentro do casamento, casamento em que o relacionamento sexual deve ser altruísta, ou seja, voltado para o outro, para a satisfação do cônjuge e não para si próprio (I Co.7:3-5).
– O casamento, ademais, é união que não comporta dissolução, a não ser quando se tem o impasse entre a continuidade do casamento e a queda em prostituição (Mt.19:9).
– O escritor aos hebreus, por fim, mostra qual deve ser a conduta do salvo em relação ao casamento: “venerado seja entre todos seja o matrimônio e o leito sem mácula, porém aos que dão à prostituição e aos adúlteros, Deus os julgará” (Hb.13:4).
– Infelizmente, na atualidade, muitos dos que cristãos se dizem ser estão vivendo intensamente “os dias de Noé”, casando-se, dando-se em casamento e comungando com tudo o que o mundo tem inventado e criado para afrontar o modelo divino da família.
– Não são poucos os que já assumem uma “imoralidade gospel”, praticando tudo quanto o Espírito Santo, por
meio dos apóstolos, anciãos e da igreja em Jerusalém, mandou que houvesse abstenção.
OBS: Hoje em dia, já há “evangélicos” que admitem a abominável união homoafetiva, como o homossexualismo, sem falar naqueles que defendem o “ficar gospel”. Aliás, para surpresa nossa, já existe “filme pornô gospel”. Estamos no final dos tempos. Vigiemos para que não entremos em tentação!
– Assim como os homens dos dias de Noé, este povo também sofrerá o juízo divino, pois não serão arrebatados naquele dia, visto que estão a seguir a doutrina de Balaão, comendo dos sacrifícios da idolatria e se prostituindo (Ap.2:14), como também a tolerar Jezabel, a profetisa que ensina e engana os servos do Senhor para que se prostituam e comam dos sacrifícios da idolatria (Ap.2:20), sem falar nos que “proíbem proibir”, que dizem “ser livres para tudo”, visto que “Deus não quer o coração”, conduta que já existia entre os que seguiam a “doutrina dos nicolaítas”, ensino que o Senhor aborrece (Ap.2:6,15).
OBS: Os nicolaítas, supostamente seguidores do diácono Nicolau (At.6:5), foram uma das primeiras heresias da Igreja. Eles defendiam uma vida sexual desregrada, permitindo tanto a poligamia quanto a fornicação. Criam que o corpo é imprestável e, por isso, deveria ser ofendido continuadamente.
– Temos aqui, na proibição da impureza sexual, mais uma vedação que envolve a nossa necessária exclusividade para com Cristo Jesus. Pertencemos a Jesus e, como tal, nosso corpo não pode ser instrumento do pecado, mas é templo do Espírito Santo e deve servir única e exclusivamente como membro de justiça para santificação (Rm.6:19).
– Tais deliberações estão em vigor ainda hoje, porquanto decorrem de um “parecer do Espírito Santo” e a Palavra de Deus permanece para sempre (I Pe.1:25). Que cumpramos, pois, estas regras a fim de que possamos entrar no céu naquele dia. Amém!
Pr. Caramuru Afonso Francisco
Fonte: https://www.portalebd.org.br/classes/adultos/11744-licao-13-assembleia-de-jerusalem-i


