INTRODUÇÃO
– Na sequência do estudo da Doutrina da Trindade ou trinitarianismo, iniciaremos o estudo do primeiro bloco do trimestre, que trata da Pessoa divina do Pai ou Deus, o Pai.
– O Pai é a Pessoa Divina que coordena a Trindade, dando a iniciativa da relação da Divindade com a Sua criação.
I – DEUS, O PAI NO ANTIGO TESTAMENTO
– Por primeiro, cumpre observar que o título da lição é “Deus Pai”, expressão que foi utilizada tanto na Confissão de Augsburgo, “…confissão de fé dos luteranos [foi] preparada por Felipe Melanchton, auxiliar de Lutero em 1530.…” (SILVA, Esequias Soares da. Credos e confissões de fé: breve histórico do Cristianismo. Recife: Bereia, 2013, p.152) como no Catecismo Menor de Martinho Lutero, para designar a Primeira Pessoa da Trindade.
– Entretanto, quando da elaboração da Declaração de Fé das Assembleias de Deus em 2017, foi proposta a mudança do título do item 4 do capítulo III (p.42), que seria precisamente “Deus Pai” para “O Pai é Deus”, a fim de que não se desse margem para que se pudesse entender que se adotava a ideia do “triteísmo”, ou seja, de que há “três deuses”, proposta que foi acolhida.
– Assim, fiel a esta orientação adotada na primeira edição da Declaração de Fé das Assembleias de Deus e, num tema tão delicado e difícil como é a Doutrina da Trindade, evitaremos o uso da expressão “Deus Pai”.
– Vimos, na primeira lição, que, desde o livro de Gênesis, Deus Se revela como sendo um único Deus, mas uma unidade composta, que, ao longo da revelação progressiva das Escrituras, vai Se mostrando como sendo um único Deus em três Pessoas distintas, que são clarividentemente reveladas no instante do batismo de Jesus por João no rio Jordão.
– Nesta revelação, que dá início ao ministério terreno de Cristo, a nos indicar que a salvação é obra da Trindade e que, portanto, não se tem possível a salvação sem que se creia neste mistério divino (I Jo.2:22), tem-se, também, a indicação precisa de quem são as Pessoas Divinas.
– No instante do batismo, Jesus é batizado por João. Ao emergir das águas, uma pomba repousa sobre Cristo
e uma voz do céu exclama: “Este é o Meu Filho amado em quem Me comprazo” (Mt.3:16,17).
– João, como profeta, traz, então, a mensagem ao povo de que Jesus era o Cristo, dizendo que vira o Espírito Santo descer sobre Jesus em forma de pomba (Jo.1:32,33). Como se não bastasse, disse que Jesus era o Filho de Deus (Jo.1:34).
– A voz vinda do céu afirmou que Jesus era o Seu Filho (Mt.3:17) e, portanto, esta voz Se identificou como sendo o Pai, porque quem tem filho é pai.
– Temos, portanto, a identificação precisa de cada uma das Pessoas Divinas: Pai, Filho e Espírito Santo.
– De pronto, notamos que do céu veio a voz, dizendo que não só o Cristo era Seu Filho como também que O havia comprazido, ou seja, estava a agradar-Lhe, prova de que foi do Pai a iniciativa do plano da salvação, tanto que, por vezes, Jesus disse ter sido enviado pelo Pai (Jo.5:23,30,36-38; 6:39,44,57; 8:18,29,42; 10:36; 12:49; 14:24; 20:21).
– O fato de a voz ter vindo do céu também é a demonstração que a Pessoa Divina do Pai é a que não assumiu uma manifestação peculiar na Terra, mantendo-Se sempre na dimensão gloriosa, ao contrário do Filho, que Se fez carne e habitou entre nós cheio de graça e de verdade (Jo.1:14),
retornando aos céus como mediador único entre Deus e os homens (I Tm.2:5) e do Espírito Santo, que,
depois de ter repousado em Sua plenitude sobre o Verbo encarnado (Is.11:2; Mt.3:16; Lc.4:1; Jo.3:34; At.10:38),
também veio repousar sobre a Igreja (Jo.14:16,17; At.1:8),
estando agora, por meio da Igreja, a convencer os homens do pecado, da justiça e do juízo (Jo.16:7-11).
– É o Pai, assim, a Pessoa Divina que dá o início do plano da salvação, pois d’Ela procede a vinda do Filho, por meio do envio, como também o próprio Espírito Santo, que também foi mandado mediante um pedido do Filho ao Pai (Jo.14:16).
– Bem, por isso, entendemos porque Jesus, ao nos ensinar a orar, manda que nós, nas orações, dirijamo-nos ao Pai, Pai que está nos céus (Mt.6:9).
– Chamar uma das Pessoas Divinas como “Pai” é muito interessante, porquanto, imediatamente, se uma das Pessoas é “Pai”, há de existir uma que é “Filho”.
– Processa-se, assim, algo semelhante a que se tem na gramática, onde a existência de uma “primeira pessoa” impõe a existência de uma “segunda pessoa”, pois, se alguém “fala”, fala, necessariamente, “com” alguém, pois a comunicação exige dois polos para se efetuar.
– O mesmo ocorre aqui. Quando a Bíblia denomina uma das Pessoas divinas de Pai, está a nos dizer que existe
um “Filho”, pois a “paternidade” é uma relação, não é algo que se possa ter isoladamente.
– Assim, logo de início, percebemos que a identificação de Deus como “Pai” já nos estabelece, na Bíblia
Sagrada, duas verdades importantíssimas:
a) Deus, embora seja único, é plural em Sua personalidade.
b) Deus não é um ser que queira ser isolado, mas antes tem prazer em Se relacionar com outros seres, pois é Pai.
– A primeira vez em que Deus é chamado de “Pai” nas Escrituras é em Dt.32:6, quando Moisés, em seu último cântico, ao profetizar a respeito da corrupção dos filhos de Israel.
– Nesta passagem, Moisés afirma que, embora Deus fosse a verdade, a Rocha cuja obra é perfeita, seja justo e reto, os filhos de Israel se corromperam, são uma geração perversa e torcida e, por isso, “não são filhos d’Ele” (Dt.32:5).
– Com o pecado retribuíam ao Senhor, que é, então, chamado explicitamente de “Pai”, porque adquiriu, fez e estabeleceu aquele povo.
– Nesta expressão profética de Moisés, vemos no que constitui a “paternidade” de Deus, porque esta Pessoa Divina é denominada de “Pai”.
– Deus é chamado de “Pai” porque adquiriu, fez e estabeleceu Israel. Notamos, pois, que há um relacionamento entre Deus e Israel e, por isso, Deus é Pai de Israel, porque o adquiriu, o fez e o estabeleceu.
– A primeira manifestação explícita de Deus como “o Pai”, portanto, mostra-nos, claramente, que a Pessoa do Pai é a responsável pelo estabelecimento de um relacionamento entre Deus e os homens, relacionamento este que é estatuído por três atitudes: a aquisição, a feitura e o estabelecimento de Israel.
– Vemos, pois, que o “Pai” é uma Pessoa que tem cuidado especial sobre Israel, pois, desde a criação, tudo fez por Israel, sustém-no em todos os momentos.
– Para quem entende que o livro de Jó é o primeiro livro da Bíblia que foi escrito, tem-se que a primeira vez em que Deus é chamado de Pai é em Jó 34:36, quando Eliú, esta personagem enigmática do livro, que apresenta uma versão mitigada de acusação a Jó, dirige-se a Deus como “Pai”, pedindo ao Senhor que provasse Jó até o fim pelas respostas próprias de homens malignos.
– Nesta expressão de Eliú, cujo discurso não chegou a ser rejeitado pelo Senhor (Jó 42:7), vemos que a consideração de Deus como “Pai” é a consideração de que Deus cuida dos homens e recompensa a cada um segundo as suas obras e que, inclusive, quer o aperfeiçoamento dos Seus filhos, tanto que está a provar Jó.
– A ideia do cuidado, que já se apresenta, também, na expressão do cântico de Moisés, é mais uma vez realçada aqui.
– A segunda vez que vemos Deus identificando-Se como Pai na Bíblia é na elaboração do chamado “pacto davídico”, ou seja, quando o Senhor promete a Davi que nunca faltaria quem se assentasse no trono de Israel de sua casa, querendo, com isto, dizer que o Messias adviria da descendência de Davi.
– Neste momento, o Senhor promete ser “como pai” para o filho de Davi, Salomão, que construiria o templo (II Sm.7:14; I Cr.17:13; 22:10; 28:6).
– Deus, então, promete ter um cuidado todo especial com a descendência de Davi, cuidado este que prenunciava o relacionamento especial que o Pai tinha com aquele que seria o mais proeminente “Filho de Davi”, o Messias, o Filho.
– Vemos, pois, que o Pai é a Pessoa que cuida do homem, que toma as providências necessárias para que o homem não se perca (cfr. Mt.18:14; Jo.6:39).
– É, aliás, uma das razões pelas quais cremos que Salomão foi salvo, apesar de seus pecados, pois Deus promete ser-Lhe um Pai, não permitindo que ele se perdesse, como ocorreu com Saul.
– O Pai é a Pessoa divina que não cessa de manifestar ao homem a benignidade divina, ou seja, o bem-querer divino em relação ao homem (I Cr.17:13).
– Nos salmos, temos passagens onde Deus Se revela como “Pai”. No Sl.68:5, é dito que Deus é “pai de órfãos” e que, inclusive, faz com que o solitário viva em família (Sl.68:6), a indicar, portanto, que a Pessoa do Pai é aquela que quer que haja um relacionamento entre Deus e os homens e que é a responsável pela deliberação de que o homem não deva viver só, sem a companhia divina.
– Daí porque o apóstolo ter dito que o Filho, ao congregar em Si todas as coisas, sujeitar-Se-á ao Pai, reunindo tudo em todos, a nos indicar que é esta Pessoa a promotora do desejo da Trindade de se reunir eternamente com a Sua criação (I Co.15:27,28; Ef.1:3,9,10).
– No Sl.89, um salmo profético e messiânico, o Pai é revelado como Aquele que será invocado pelo
“primogênito”, pelo “Messias”, que O invocará como Pai e como Deus, como a rocha da salvação (Sl.89:26).
– Neste salmo, que é de Etã, confirma-se a palavra profética dada a Davi por ocasião do “pacto davídico”, mostrando, claramente, que a revelação da pessoa do Pai não se circunscrevia a Salomão, mas se estendia à linhagem de Davi, até o surgimento do Messias, o Filho propriamente dito.
– No Sl.103:13, Deus é apresentado como “Pai” porque Se compadece daqueles que O temem.
– A Pessoa do Pai, portanto, é apresentada como Aquela que, na Deidade, toma a iniciativa de se pôr no lugar do homem, de sentir o que ele está sentindo, o que se verificará, por meio da Pessoa do Filho, que Se tornará semelhante ao homem, para que possa concretizar esta compaixão (Hb.2:10-18).
– Em Is.9:6, vemos que o profeta, ao se referir ao Filho, que nos é dado (note-se que o menino é nascido, falando-nos do Jesus homem, mas o Filho é dado, o que nos fala do Jesus Deus, que não nasce, pois sempre existiu e sempre existirá), elenca entre Seus atributos o de ser Pai da eternidade.
– Vemos nesta declaração, uma atribuição de paternidade ao Filho, algo muito profundo. Ao nos dizer que Jesus é o Pai da eternidade, o profeta nos mostra, claramente, que a Pessoa do Pai não é Pai porque tenha surgido antes de Jesus, como, equivocadamente, ensinam muitos (unitaristas, Testemunhas de Jeová, sabatistas etc.), mas é Pai porque estabelece uma relação com os homens, porque inicia, tem a iniciativa do relacionamento.
– Jesus, como sempre existiu, embora seja o Filho, é o Pai da eternidade, porque, pela Sua eternidade, tanto quanto o Pai quanto o Espírito Santo, é quem toma a iniciativa desta dimensão que ultrapassa a nossa compreensão racional.
– Porque é eterno, assim como o Pai e o Espírito Santo, Jesus é o Pai da eternidade, porque é Ele, enquanto Deus, assim como as demais Pessoas divinas, que toma a iniciativa de criar o tempo. Ser Deus, o Pai, portanto, não é uma questão de anterioridade, mas de iniciativa de relacionamento.
– Este papel de iniciador dos relacionamentos e de tomador das providências e dos cuidados devidos para que tal relação se estabeleça e permaneça é, uma vez mais, realçado pelo profeta Isaías em meio a um dos belos cânticos que se encontram em seu livro.
– Em Is.63:16, o profeta exclama que Deus é Pai do Seu povo, ainda que Abraão ou Israel não conhecessem ou reconhecessem a sua descendência. A paternidade de Deus, nos dizeres inspirados do profeta, independe da relação biológica, mas é fruto da iniciativa tomada por Deus para guiar, proteger, formar e sustentar o Seu povo.
– A paternidade se mostra pelas benignidades do Senhor que o profeta menciona (Is.63:7-15). A Pessoa divina do Pai Se apresenta como a que toma a iniciativa de fazer o bem, porque quer o bem e, como sabemos, em Deus o querer é o efetuar (Fp.2:13).
– Por isso, o Pai é o Redentor desde a antiguidade, como afirma o profeta, porque, desde antes da fundação do mundo, desejou e já efetuou o resgate do homem que nem havia criado.
– Em Is.64:8, o profeta dá um outro motivo para que Deus seja o Pai. Ele é o Criador do homem.
– Por sermos obra das mãos do Senhor, Deus é nosso Pai. Tal expressão, aliás, está em perfeita consonância com o cântico de Moisés, que havia considerado Deus como Pai de Israel porque Ele havia feito este povo. Esta realidade, aliás, será repetida pelo profeta Malaquias (Ml.2:10)
– O profeta Jeremias também revela a Pessoa do Pai, como Aquele que guia e orienta o povo. O Pai Se manifesta na iniciativa de guiar e orientar o povo, assim como um jovem é orientado na sua inexperiência (Jr.3:4).
– Nesta orientação, inclusive, o Pai provoca mudanças climáticas, deixa de ser favorável, para provocar o arrependimento no Seu povo.
A paternidade revela-se, portanto, como o cuidado, como o absoluto controle sobre todas as coisas, tudo fazendo para que se mantenha e perdure o desejado relacionamento, a aliança entre Deus e os homens, pois só assim, quando há verdadeira comunhão, pode Deus ser chamado sinceramente de Pai (Jr.3:17-19; 31:9).
– É neste sentido, aliás, que Jeremias é levado a falar com os recabitas e a fazer uma comparação entre a atitude dos recabitas com relação a seu ancestral, Jonadabe, e o comportamento que Judá mantinha com o Senhor nos dias do “profeta das lágrimas” (Jr.35:14-16).
– Mas o Pai não existe apenas para tomar a iniciativa da benignidade. Conforme nos revela o profeta Malaquias, por ser Pai, Deus tem de ser honrado.
– O relacionamento não depende apenas de um lado. O Pai é quem toma a iniciativa de estabelecer uma convivência entre Deus e o homem, mas tal convivência depende da devida honra que demos ao Pai, honra esta que se traduz pela obediência:
“…e, se Eu sou Pai, onde está a Minha honra? E, se Eu sou Senhor, onde está o Meu temor?…” (Ml.1:6 “in medio”).
II – DEUS, O PAI REVELADO PELO FILHO
– Entretanto, seria com a manifestação do Filho que a Pessoa do Pai Se revelaria em todo o Seu esplendor à humanidade.
– Com efeito, como nos ensina o próprio Jesus, quem vê o Filho, vê o Pai (Jo.14:9,10). Jesus veio ao mundo com o propósito único de glorificar o Pai (Jo.17:4), depois de tê-l’O feito conhecer aos homens (Jo.15:15).
– Por isso, no introito desta lição, dissemos que a Pessoa do Pai exige a Pessoa do Filho e vice-versa. O entendimento completo de uma pressupõe o da outra e é por este motivo que quem nega o Filho, nega o Pai (I Jo.2:22,23); quem aborrece o Pai, aborrece também o Filho (Jo.15:23,24); quem persevera na doutrina de Cristo, tem tanto o Pai quanto o Filho (II Jo.9).
– Quando Jesus vem ao mundo, dá-nos a completa revelação do Pai (Mt.11:27; Lc.10:22; Jo.1:18; 8:25-27), já que ambos são um (Jo.10:30;17:22).
– No sermão do monte, Jesus mostra que Seus discípulos devem ter um comportamento que levem os homens a glorificar o Pai que está nos céus (Mt.5:16).
– Revela-nos, nesta lição, preciosidades espirituais, entre as quais: que a obediência nos põe em relação filial com Deus (a propósito, a expressão “filhos de Deus” só é estendida aos homens no Novo Testamento, a demonstrar que exige a revelação da Pessoa do Pai, o que se fez tão somente, em sua plenitude, com Cristo); que a relação de paternidade de Deus leva os homens a reconhecer a majestade e a glorificar o Senhor e que o Pai Se encontra nos céus.
– Ainda no sermão do monte, Jesus mostra-nos que o Pai não faz distinção entre os homens, embora não seja Pai de todos eles no sentido pleno, tanto que faz cair a chuva sobre justos e injustos (Mt.5:45).
– Também nos mostra que o Pai é perfeito (Mt.5:48) e galardoador daqueles que O buscam, com quem quer manter um relacionamento íntimo (Mt.6:1,4,6,8,9,18).
– Aliás, esta comunicação com o Pai é feita através da oração (Mt.6:9). Por isso, devemos orar ao Pai (Mt.26:39,53; Lc.23:34,46; Jo.14:16; 15:16), em nome do Filho (Jo.14:13,14; Ef.5:20).
– Jesus também nos ensinou que é o Pai quem perdoa os pecados (Mt.6:14,15;18:35), quem alimenta os animais (Mt.6:26), quem conhece as necessidades materiais dos homens (Mt.6:32; Lc.12:30), quem quer dar o bem aos Seus filhos (Mt.7:11; Lc.11:13), quem todo o controle sobre a criação (Mt.10:29), quem dá sabedoria aos pequeninos (Mt.11:25; 16:17), quem tem a misericórdia (Lc.2:36).
– Neste aspecto da misericórdia e da benignidade divina, Jesus traz-nos a sublime revelação, qual seja, a de que o amor do Pai é tanto que Ele resolveu enviar o Seu Filho para proporcionar a salvação da humanidade.
– Esta iniciativa de relacionamento chega ao ponto máximo de a Divindade aceitar Se humanizar para restabelecer a comunhão perdida com o pecado.
Deus quis nos dar o Seu Reino (Lc.12:32) e, por isso, enviou o Seu Filho para que todo aquele que n’Ele crê não pereça mas tenha a vida eterna (Jo.3:16). É um amor que não há como explicarmos, que vai além de todo entendimento (Ef.3:19).
– Não bastasse isso, o Filho ainda revela que, também por amor, o Pai enviaria o Espírito Santo para não deixar os discípulos do Filho órfãos (Mt.10:20; Lc.24:49; Jo.14:6).
– Este amor do Pai foi bem ilustrado pelo Senhor Jesus na parábola do filho pródigo. No entanto, este Reino tem um único acesso, que é o Filho (Lc.22:29; Jo.10:7,9).
– Jesus também nos revelou que o Pai deve ser adorado e adorado em espírito e em verdade (Jo.4:21,23), adoração esta que é buscada pelo Pai, não porque Ele necessite de adoração, mas porque quer ter um relacionamento com o homem.
– O Pai é apresentado, sobretudo, como a fonte do amor divino em relação ao homem, a iniciativa amorável por excelência (Jo.3:35; 5:20).
– Esta ideia de iniciativa não se vê apenas no
amor, mas também no trabalho (Jo.5:17),
nas obras (Jo.5:19;10:32),
na vivificação e ressurreição (Jo.5:21),
na vida (Jo.5:26),
no envio do Filho (Jo.5:30,36),
no envio dos homens ao encontro do Filho (Jo.6:37,44),
no ensino (Jo.8:28),
na determinação de mandamentos (Jo.10:18;12:49),
no envio do Espírito Santo (Lc.24:49; Jo.15:26; At.1:4;2:33).
– Quanto ao julgamento, o Pai o delegou ao Filho por Sua sublime vontade (Jo.5:22,23), assim como incumbiu o Filho de dar o alimento espiritual, o verdadeiro pão do céu, que é a própria Palavra de Deus, o Verbo Divino (Jo.6:27,32).
– Jesus também nos ensina que Deus só é Pai no seu sentido pleno daqueles que amam a Cristo e que creem n’Ele.
– João, no introito do seu evangelho, revela-nos esta realidade: só são filhos de Deus os que creem em Jesus (Jo.1:12,13), o que é repetido na reprodução de um discurso do próprio Jesus, como se lê em Jo.8:41,42.
– Quem não corresponde ao chamado, à iniciativa do Pai, com a fé em Jesus Cristo, não tem a Deus como pai, mas, sim, ao adversário (Jo.8:44). O Pai somente honra aos que servem a Cristo (Jo.12:26;14:21,23).
– Jesus também nos faz conhecer que o Pai é santo (Jo.17:11), eterno (Jo.17:5), justo (Jo.17:25), ou seja, que é Deus.
III – DEUS, O PAI NA IGREJA PRIMITIVA
– Após esta contundente revelação do Pai pelo Filho, não poderia, mesmo, senão se ter uma consciência clara por parte da Igreja constituída pelo Senhor a respeito do Pai.
– Havendo, pois, tamanha clarividência a respeito do Pai, revelado que foi pelo Filho, vemos que os apóstolos bem sabiam que o Pai não só era nosso Pai como também, em caráter peculiar, o “Pai de Jesus Cristo” (Rm.1:7; I Co.1:3, II Co.1:2), numa distinção importante, pois Deus não é Pai dos homens e Pai de Jesus Cristo num mesmo sentido, tanto que o Senhor Jesus sempre fez questão de frisar a respeito, tanto que usava expressões distintivas como “meu Pai e vosso Pai”, “meu Deus e vosso Deus” (Jo.20:17).
– Tal distinção tem a ver com o fato de sermos filhos por adoção (Rm.8:15), enquanto Cristo o é por natureza, daí porque ser chamado de “o Filho do Pai” (II Jo.3).
– Também encontramos, em o Novo Testamento, a perfeita distinção entre o Pai como o iniciador de tudo e o Filho, como o Caminho, a Via em que tudo se mantém e sustém (I Co.8:6), caminho este que, após tudo se congregar em Si, retornará tudo ao Pai (I Co.15:24).
– É dito também que o Filho é o Salvador do mundo, sendo que o Pai é Aquele que enviou do Salvador (I Jo.4:14).
– Em o Novo Testamento, repete-se o que já vimos no Antigo Testamento e pelo próprio Cristo, ou seja, a identificação do Pai como a Pessoa Divina misericordiosa, pois Ele é chamado de “Pai das misericórdias” (II Co.1:3).
– Ainda seguindo a revelação de Cristo, o Pai é apresentado como uma Pessoa que exige a separação do pecado e que somente é Pai daqueles que se apartam do mal (II Co.6:17,18),
como eterno e bendito (II Co.11:31),
como o iniciador da própria constituição de ministros na Igreja (Gl.1:1),
como fonte de graça (Gl.1:3; Ef.1:2; Fp.1:2; Cl.1:2),
de bênçãos espirituais (Ef.1:3),
de sabedoria e de revelação (Ef.1:17),
de amor (II Ts.2:16).
– Deus, o Pai é revelado, ainda, como o responsável pela correção (Hb.12:7-9), sendo, ademais, o “Pai dos espíritos”, bem assim o “Pai das luzes” em que não há mudança nem sombra de variação (Tg.1:17), sendo, aliás, o alvo de toda religião pura e imaculada (Tg.1:27).
– Sua iniciativa com respeito ao relacionamento entre Deus e os homens também é enfatizada ao se dizer que a eleição dos homens se dá segundo a Sua presciência (I Pe.1:2) e geração (I Pe.1:3), além do que somos queridos por Ele e conservados pelo Filho (Jd.1).
– O Pai, uma vez mais, é dito ser imparcial (I Pe.1:17), ter ocasionado a honra e glorificação do Filho (II Pe.1:17), ter sido a fonte de manifestação da vida eterna (I Jo.1:2), ser completamente distinto e oposto ao mundo (I Jo.2:15,16).
IV – AS FUNÇÕES DE DEUS, O PAI
– Já vimos que as Pessoas Divinas são distintas, embora constituam um único Deus. A distinção das Pessoas é perfeitamente demonstrada nas Escrituras e, por conseguinte, conquanto tenham a mesma essência e substância, desempenham funções diferentes em todas as ações divinas.
– “Função”, como afirma o Dicionário Houaiss da Língua Portuguesa, é atividade natural ou característica de algo (elemento, órgão, engrenagem etc.) que integra um conjunto, ou que é o próprio conjunto”.
Assim, em cada ação divina, cada Pessoa exerce um determinado papel, contribui de um modo próprio para a operação.
– Pela sua biblicidade e ortodoxia, reproduzimos aqui a feliz explicação a este respeito dada pelo Catecismo da Igreja Católica Romana: “Toda a economia divina é obra comum das três pessoas divinas. Assim como não tem senão uma e a mesma natureza, a Trindade não tem senão uma e a mesma operação (II Concílio de
Constantinopla (ano 553), Anathematismi de tribus Capitulis, 1: DS 421). «O Pai, o Filho e o Espírito Santo não são três princípios das criaturas, mas um só princípio» (Concílio de Florença, Decretum pro Incobitis (ano 1442): DS 1331.). No entanto, cada pessoa divina realiza a obra comum segundo a sua propriedade pessoal…” (§ 258 CIC).
– De igual maneira, o Catecismo Maior de Westminster assim declara: “9. Quantas pessoas há na Divindade?
Há três pessoas na Divindade: o Pai, o Filho e o Espírito Santo; estas três pessoas são um só Deus verdadeiro e eterno, da mesma substância, iguais em poder e glória, embora distintas pelas suas propriedades pessoais. Mt 3.16-17, e 28.19; 2Co 13.14; Jo 10.30”.
– Uma vez mais aproveitando uma feliz redação do Catecismo da Igreja Católica: “Inseparáveis no que são, as pessoas divinas são também inseparáveis no que fazem.
Mas, na operação divina única, cada uma manifesta o que Lhe é próprio na Trindade, sobretudo nas missões divinas da Encarnação do Filho e do dom do Espírito Santo.” (§ 267 CIC).
– Como afirma, de modo muito feliz, a Declaração de Fé das Assembleias de Deus: “…Existe, sim, uma distinção de serviço…” (DFAD, 2. ed., II.1, p.39).
– A Confissão de Fé de Westminster afirma que “…o Pai não é de ninguém: não é gerado nem procedente…” (Capítulo 2.3).
Tem-se aqui porque se está a dizer que é o Pai a Pessoa Divina que “inicia o relacionamento com o homem”, porque é o ponto de partida, é a partir desta Pessoa que se iniciam as ações divinas.
– A primeira ação divina em relação ao homem foi a Criação. Sendo ação divina, nela estão envolvidas todas as Pessoas Divinas, sendo, pois, equivocado dizer que o Pai é o Criador. Não, não e não!
– A Criação é obra de todas as Pessoas Divinas, tanto que “…o verbo ‘criou’ está no singular, e o sujeito Elohim, ‘Deus’, no plural, o que revela uma pluralidade na deidade… “(Declaração de Fé das Assembleias de Deus, 1. ed., III.1, p.40) (destaque original).
– Isto se mostra ainda mais explícito em relação ao homem, como se verifica do texto de Gn.1:26, onde se
utiliza o verbo no plural: “Façamos o homem”.
– Na Criação, “…o Pai proclamou as palavras criadoras [Sl.33:9; Hb.11:3] …” (DFAD, 2. ed.,, II,1, p.40). Deste modo, coube ao Pai o ponto de partida da Criação, com a proclamação do que havia de ser criado, o comando para a criação, que foi executada pelo Filho e organizada pelo Espírito Santo.
– O pai da Igreja, Irineu de Lião (130-202), buscando explicar esta realidade, afirmou que o Pai “…Fez todas as coisas por Si mesmo, quer dizer, pelo Seu Verbo e pela sua Sabedoria» (Adversus haereses, 2, 30, 9: SC 294, 318-320 (PG 7, 822) «pelo Filho e pelo Espírito» que são como «as suas mãos» (Ibidem, 4, 20, 1:SC 100, 626 (PG 7, 1032).
– A segunda ação divina em relação ao homem foi a Salvação, também chamada de Redenção, uma vez que se tratava do pagamento do preço do pecado do homem para que, satisfeita a justiça divina, pudesse o homem retomar a comunhão com o Senhor.
Aqui também, tem-se uma ação conjunta de todas as Pessoas Divinas, pois quem quer que o homem é Deus (I Tm.2:5), que é único mas subsistente em três Pessoas.
– Como afirma a Declaração de Fé das Assembleias de Deus, “…o Pai planejou a redenção [Tt.1:2] …” (DFAD, 2.ed., II.1, p.40), o que fica evidenciado no chamado “texto áureo” da Bíblia, que nos mostra que o Pai deu o Filho Unigênito para que todo aquele que n’Ele crer não pereça, mas tenha a vida eterna (Jo.3:16).
– Ora, quem pode dar o Filho senão o Pai? Foi o papel do Pai, pois, enviar o Filho para que Ele fosse o Salvador, humanizando-Se, realizando, assim, a obra que Lhe foi determinada pelo Pai (Jo.17:4).
– A condição de Jesus ter sido enviado pelo Pai, como acima já se disse e que será objeto de estudo específico em lição futura, é que explica porque é o Senhor Jesus chamado de “apóstolo e sumo sacerdote da nossa confissão” (Hb.3:1), pois foi enviado pelo Pai para oferecer-Se como sacrifício pelos nossos pecados.
– Na salvação do homem, coube ao Pai a eleição, ou seja, a escolha por salvar o homem, o que, por exemplo, não ocorreu com relação aos anjos que pecaram, cuja salvação não foi sequer cogitada.
– O Pai escolheu salvar os homens por Cristo (Ef.1:4; I Pe.1:2), tornando filhos de Deus por adoção todos aqueles que cressem em Jesus (Jo.1:12; Ef.1:5), o que bem explica a afirmação da Declaração de Fé das Assembleias de Deus de que o planejamento da salvação foi feito por Deus, o Pai.
– Outra ação do Pai é a glorificação do Filho, após a redenção. Na Sua oração sacerdotal, Cristo mostra que, quando da redenção, assim como o Filho iria glorificar o Pai, fazendo-Lhe a vontade e bebendo o cálice (Lc.22:42), morrendo em lugar dos homens (Rm.5:8; I Co.15:3; II Co.514,15), fazendo-Se pecado por nós (II Co.5:21), ou seja, consumando a obra que Lhe fora confiada (Jo.17:4), assim também o Pai iria glorificar o Filho (Jo.17:5).
– E assim foi feito. A ressurreição de Cristo e Sua ascensão aos céus representou a glorificação do Filho (Jo.17:5; Rm.1:4), a quem foi dado todo o poder no céu e na terra (Mt.28:18), algo que já fora profetizado por Davi no Sl.24:7-10, que nos mostra Jesus como o Rei da glória, tanto na Sua ascensão (Sl.24:7,8), quanto no momento em que ingressará com os santos nos portais eternos (Sl.24:9,10).
– É em função desta glorificação que foi o Filho quem abriu o livro com os sete selos, fazendo da Grande Tribulação a manifestação da “ira do Cordeiro” (Ap.5; 6:16) e que será Ele o julgador no trono branco (At.17:31; II Tm.4:1; I Pe.4:5).
– Após a redenção, o Pai também opera a santificação. O Senhor Jesus pediu ao Pai que santificasse a Igreja na verdade, que é a Palavra (Jo.17:17).
– A santificação na verdade, sem a qual nós não veremos o Senhor (Hb.12:14), é feita pelo Pai, a pedido do Filho, Filho que nos deixou o exemplo, santificando-se a Si mesmo (Jo.17:19), exemplo que devemos seguir (I Pe.2:21).
– Este exemplo é seguido quando o Espírito Santo convence o pecador da justiça (Jo.16:8,10), fazendo-nos crer que Jesus é o Salvador, a cuja imagem devemos nos conformar (Rm.8:29) e, bem por isso, o Espírito é chamado de Espírito de santificação (Rm.1:4).
– O Pai dá a Palavra (Sl.68:11), que foi reduzida por escrito por homens inspirados pelo Espírito Santo (II Pe.1:20,21), Palavra que é a fiel testemunha do Filho (Jo.5:39).
– O Pai nos gera de novo, ao crermos em Jesus, cujo sacrifício satisfez a justiça divina, como comprova a Sua ressurreição, para uma viva esperança, para uma herança incorruptível, incontaminável e que não se pode murchar, guardada nos céus para nós (I Pe.1:3,4).
– Além de nos gerar de novo, o Pai nos abençoa com todas as bênçãos espirituais nos lugares celestiais em Cristo, o que nos dá conta de que é o Pai quem promove a nossa santificação posicional, ou seja, quem nos separa do pecado, por meio da Palavra, visto que a geração se dá pela semente incorruptível, que é a Palavra de Deus (I Pe.1:23).
– O Pai nos põe nos lugares celestiais em Cristo, dando-se todas as bênçãos espirituais, a começar pela guarda dos discípulos de Jesus neste mundo, conforme pedido pelo Filho (Jo.17:11), mantendo-os na posição de santidade, para que possam eles desenvolver a sua comunhão com Deus (Jo.17:11).
– Eis porque nossas petições devam ser feitas ao Pai em nome de Jesus Cristo (Jo.15:16).
– A ação derradeira do Pai será congregação de todas as coisas em Cristo.
– Quando vier o fim, o Filho entregará o reino ao Pai (I Co.15:24), na chamada dispensação da plenitude dos tempos (Ef.1:10), e todas as coisas serão congregadas em Cristo pelo Pai, os novos céus e terra em que habita a justiça (II Pe.3:13).
– Nesta oportunidade, o Filho Se sujeitará ao Pai, devolvendo o poder que Lhe foi entregue após a ressurreição, pois já terá, então, posto todos os inimigos debaixo de Seus pés (I Co.15:25) e Deus será tudo em todos (I Co.15:28), a perfeita unidade entre as Pessoas divinas se estenderá aos salvos, mantida, evidentemente, a distinção entre Criador e criaturas, mas se cumprindo o objetivo de todo o plano da salvação (Jo.17:11,20,21).
Pr. Caramuru Afonso Francisco
Fonte: https://www.portalebd.org.br/classes/adultos/12014-licao-2-o-deus-pai-i


