INTRODUÇÃO
-Na sequência do estudo da Doutrina da Trindade, analisaremos hoje a relação entre o Pai e o Filho.
-O Pai enviou o Filho.
I – O PAI GEROU O FILHO, NÃO CRIOU O FILHO
-Na sequência da Doutrina da Trindade, após termos visto a figura de Deus, o Pai, passaremos a analisar a relação existente entre o Pai e o Filho.
-A relação entre o Pai e o Filho é, como sói ocorrer entre as Pessoas Divinas, extremamente íntima, pois entre Eles há unidade, pois estamos diante de um único Deus (Dt.6:4; Mc.12:29; Ef.4:5,6).
-“…Cremos, declaramos e ensinamento o monoteísmo bíblico, que Deus é uno em essência e substância, indivisível em natureza e subsiste eternamente em três Pessoas [Mt.3:16,17] — o Pai, o Filho e o Espírito Santo, iguais em poder, glória e majestade e distintas em função, manifestação e aspecto: “Portanto, ide, ensinai todas as nações, batizando-as em nome do Pai, e do Filho, e do Espírito Santo” (Mt.28:19)…” (DFAD, 2.ed., II, p.37).
-Vimos que o Pai é chamado de a Primeira Pessoa da Trindade porque é o princípio sem princípio e por ser o iniciador de todos os processos divinos em relação à criação e, mais propriamente, em relação ao homem, mas que isto não retira, em absoluto, a igualdade absoluta que há entre todas as Pessoas Divinas.
-O Pai é chamado de Pai porque gerou o Filho (Sl.2:7; At.13:33; Hb.1:5; 5:5) e esta geração não significa criação, pois Jesus não é criatura, mas o Criador (Jo.1:3; Cl.1:15-17).
-Esta geração é eterna, porque não se trata de criação, pois tanto o Pai quanto o Filho são eternos e, deste modo, não têm princípio nem fim, e quem é eterno nunca pode ser criatura, tão somente Criador. Jesus é chamado de “Pai da eternidade” (Is.9:6), como também é dito que é sacerdote eterno segundo a ordem de Melquisedeque (Sl.110:4; Hb.5:6; 6:20; 7:17,21).
-O próprio Jesus apresenta-Se como sendo “o Alfa e Ômega, o Princípio e o Fim”, O “que é, que era e que há de vir, o Todo-Poderoso” (Ap.1:8), “o Primeiro e o Último” (Ap.1:17), não se tendo, pois, como considerá-l’O como uma criatura, ainda que seja “a primeira criatura do Universo”.
-Esta geração, portanto, não é criação, como foi esclarecido no Primeiro Concílio de Niceia, ocorrido em 325. Atentemos, aliás, que tal doutrina não foi criada nesse Concílio, que, tão somente, resolveu a questão da divindade de Jesus, que estava causando grande divisão na Igreja naquela época, resolução que se fez com base nos textos bíblicos, pois é a Bíblia a única regra de fé e prática do cristão.
-Esta foi a grande discussão do Primeiro Concílio de Niceia, que teve, como principal resultado, o surgimento do chamado Credo Niceno, cujo introito, pela pertinência com o tema ora analisado, é reproduzido: “Creio em um só Deus, Pai Todo Poderoso, Criador de todas as coisas visíveis e invisíveis.
E em um só Senhor Jesus Cristo, Filho de Deus, o Unigênito do Pai, que é da substância do Pai, Deus de Deus, Luz de Luz, verdadeiro Deus de verdadeiro Deus, gerado, não feito, de uma só substância com o Pai, por meio de quem todas as coisas vieram a existir, as coisas que estão no céu e as coisas que estão na terra, que por nós, homens, e por nossa salvação desceu e foi feito carne, e se fez homem, sofreu e ressuscitou ao terceiro dia, subiu aos céus, e virá para os vivos e os mortos.…” (DFAD 2.ed. Apêndice. Os Credos Ecumênicos, p.210).
-Esta geração nada mais é que a escolha da Pessoa do Filho para que viesse ao mundo e, enquanto homem, pagasse o preço pelos pecados da humanidade, satisfazendo a justiça divina e, deste modo, permitindo a restauração da comunhão perdida entre Deus e o homem, por causa da entrada do pecado no gênero humano.
-Esta geração, para se utilizar de uma expressão do Catecismo Maior de Pio X, deu-se pela “via da inteligência”, ou seja, na elaboração do plano da salvação, no planejamento, uma das Pessoas aponta outra delas para ser Aquela que haveria de vir ao mundo e morrer pelos pecadores. Esta que aponta como que gera o Salvador. Quem faz o apontamento é o Pai, quem é o escolhido para a tarefa, o Filho.
-Por isso, as Escrituras nos revelam que “o Cordeiro foi morto desde a fundação do mundo” (Ap.13:8), “o Cordeiro imaculado e incontaminado conhecido, antes da fundação do mundo” (I Pe.1:19,20).
-Cristo deixou bem claro que viera ao mundo precisamente para morrer pelos pecadores: “Porque Deus enviou o seu Filho ao mundo não para que condenasse o mundo, mas para que o mundo fosse salvo por ele” (Jo.3:17); “Agora, a minha alma está perturbada e que direi Eu? Pai, salva-Me desta hora; mas para isso vim a esta hora” (Jo.12:27).
-Como o Pai é o ponto de partida de todo o plano da salvação, é propriamente chamada de Primeira Pessoa da Trindade e esta Pessoa, que é gerada, por ser gerada chamada de Filho e propriamente considerada como a Segunda Pessoa da Trindade, por uma ordenação lógica, jamais por qualquer indicação de superioridade de uma das Pessoas em relação à outra.
-“… A paternidade é o papel da Primeira Pessoa da Trindade que opera por meio do Filho e do Espírito Santo [I Co.12:4-6; Ef.4:4-6].
O Pai proclamou as palavras criadoras [Sl.33:9; Hb.11:3], e o Filho executou-as [Jo.1:3; Cl.1:16]. O Pai planejou a redenção [Tt.1:2], e o Filho, ao ser enviado ao mundo, realizou-a [Jo.17:4; Hb.5:9].
Quando o Filho retornou ao céu, o Espírito Santo foi enviado pelo Pai e pelo Filho para ser o Consolador e Ensinador [Jo.14:26]. A subordinação do Filho não compromete a Sua deidade absoluta e, da mesma forma, a subordinação do Espírito Santo ao ministério do Filho e ao Pai não é sinônimo de inferioridade.…” (DFAD 2.ed., II.1, p.40).
-Os próprios judeus entenderam bem o que significa Jesus como Filho de Deus, tanto que resolveram matar o Senhor precisamente porque Se dizia Filho e afirmava existir a Pessoa Divina do Pai. É o que lemos em Jo.5:18: “Por isso, pois, os judeus ainda mais procuravam matá-lo, porque não só quebrantava o sábado, mas também dizia que Deus era seu próprio Pai, fazendo-se igual a Deus”.
-Os judeus bem entendiam que Jesus não era em nada inferior ao Pai, era igual a Ele. Como afirma o item 6 do Credo de Atanásio: “Mas a deidade do Pai, do Filho e do Espírito Santo é toda uma só: glória é igual e a majestade é coeterna” (apud DFAD 2.ed., Apêndice. Credos ecumênicos, p.213).
-O próprio texto do Sl.2:7 indica que esta geração não se trata de uma criação, porquanto o Filho gerado já existia, pois fora, antes, ungido como rei no santo monte Sião (Sl.2:6).
-Só, então, após tal unção, o Pai “recita o decreto”. O decreto é uma “designação”, pois é este o sentido primeiro da palavra hebraica “hoq” (ֹחק), “…uma designação de tempo, espaço, quantidade, trabalho ou uso” (Bíblia de Estudo Palavra-Chave. Dicionário do Antigo Testamento, verbete 2706, p.1652).
-Nota-se, pois, que esta “geração” não é trazer à existência, mas a concessão de um papel, de uma função.
E o papel, inclusive, é o de “Filho”, pois é esta a designação dada por quem recita o decreto.
-As designações de Pai e Filho, portanto, são decorrentes da própria nomenclatura utilizada por ambas as Pessoas Divinas, pois se a Primeira Pessoa da Trindade designa de Filho a Segunda Pessoa, está a designar- Se, automaticamente, como Pai.
-Ao anunciar a concepção de Jesus a Maria, o anjo Gabriel, que, como anjo, é um ser que cumpre as ordens divinas, obedecendo à voz da palavra do Senhor (Sl.103:20), diz que Cristo era o Filho de Deus (Lc.1:35), tanto que assim seria chamado, sendo também denominado de “o Santo”, a revelar a Sua deidade.
-Mas não só o Filho era assim denominado, mesmo antes de ter vindo ao mundo, como também o Pai também é assim chamado pelo Senhor Jesus ao longo de Seu ministério terreno.
-No sermão do monte, que é um sermão didático aos Seus discípulos, em que Cristo como que lhes dá “a lei do reino de Deus”, faz questão de fazer menção do Pai, que é sempre chamado de “vosso Pai” ou “teu Pai” (Mt.5:16; 6:1,4,6,8,9,14,15,18,26,32;7:11) ou “Pai que está nos céus” ou “Pai celestial” (Mt.5:45,48; 6:1,14,26,32;7:11).
-Uma vez, porém, já próximo ao término do sermão, Cristo Se dirige ao Pai como “meu Pai” (Jo.7:21),
dizendo estar Ele nos céus.
-O Filho, pois, chama a Primeira Pessoa da Trindade de “Pai” e nos revela que não só seria Ela o “Seu Pai”, mas também o “nosso Pai”, mostrando que os Seus discípulos são “filhos do Pai” (Mt.5:45).
-Esta consideração dos discípulos do Senhor Jesus como “filhos do Pai” será repetida pelo Senhor Jesus no episódio em que Seus próprios familiares tentarão prendê-l’O, por considerarem que estava fora de Si ao Se proclamar como o Cristo.
-Nessa oportunidade, quando Sua mãe e Seus irmãos estão do lado de fora da casa onde o Senhor estava a ministrar e Lhe chamam, Jesus não os atende e ainda diz que Seus familiares seriam aqueles que fizessem a vontade do Pai (Mt.12:46-50), ou seja, para pertencer à família de Deus, que é a Igreja (Ef.2:19), mister se faz ser “filho do Pai”.
-A ideia de que o Pai forma uma família com os discípulos do Filho é reforçada com a afirmação de Jesus ao responder à indagação de Seus discípulos quanto ao escândalo dos fariseus quando o Senhor criticou o uso da tradição para invalidar os mandamentos divinos (Mt.15:1-11).
-Naquela oportunidade, o Senhor Jesus disse que seriam arrancadas todas as plantas que não tivessem sido plantadas pelo Pai celestial (Mt.15:13), ou seja, mostra que, assim como um pai de família, o Pai cuida para que não fiquem na Sua lavoura quem não foi plantado por Ele, o que nos faz lembrar da parábola do joio e do trigo (Mt.13:24-30;36-43).
-Por isso, o Senhor Jesus falará que Aquele que o Pai não trouxer nunca poderá vir ao Filho (Jo.6:44). Como, então, entender que alguém que negue o Pai ou o Filho alcança a salvação?
-Neste sermão, fica, também, perfeitamente delineada a distinção entre as Pessoas do Pai e do Filho, pois o Senhor Jesus faz questão de mostrar que o Pai está nos céus, é o Pai celestial, enquanto o Filho havia descido, não sendo, pois, a mesma Pessoa (Jo.3:13).
-Outro momento em que Jesus chama o Pai de Pai, fazendo distinção entre essas duas Pessoas Divinas é aquele em que manda os Seus doze discípulos realizar o que costumamos denominar de “estágio de evangelismo”.
-É particularmente interessante observarmos que Cristo vai Se dedicar a fazer esta distinção entre Ele e o Pai neste instante em que está a enviar os Seus discípulos para uma evangelização, uma preparação daquilo que seria o próprio papel dos doze, após a paixão, morte, ressurreição e ascensão do Senhor.
-A obra que foi dada ao Senhor Jesus, para a qual foi designada, como vimos, que é propriamente a “geração”, é sintetizada pelo escritor aos hebreus ao dizer que Jesus Cristo é “apóstolo e sumo sacerdote da nossa confissão” (Hb.3:1).
-Jesus é “apóstolo”, ou seja, é o “enviado”, pois a palavra grega “apóstolos” (άπόστολος), tem como significado “aquele que é enviado em missão”.
-Mas qual é a missão? O próprio escritor aos hebreus responder: a de sumo sacerdote da nossa confissão, ou seja, Ele foi enviado para oferecer um sacrifício para remoção dos pecados da humanidade.
-A “nossa confissão” é a confissão dos nossos pecados, é o reconhecimento de que somos pecadores e que precisamos ser remidos e essa remissão se deve fazer pelo derramamento de sangue (Hb.9:22), sangue de um homem que nunca tenha pecado e que entregue a sua vida pelos homens
-Foi exatamente isto que Jesus fez por nós: ofereceu um sacrifício perfeito, o Seu próprio corpo, pois é o Cordeiro de Deus que tira o pecado do mundo (Jo.1:29; Hb.10:10-14), sendo a propiciação pelos pecados de todo o mundo (I Jo.2:2; 4:10; Mt.20:28).
-Assim, no exato instante em que envia os doze discípulos para realizar o seu “estágio de evangelismo”, porque seriam eles, ao término da missão terrena do Senhor, os responsáveis pela continuidade da obra salvífica, mediante a pregação do Evangelho (Jo.20:21), o Senhor vai Se referir ao Pai, a fim de ensinar que espécie de relacionamento deveria haver entre Jesus e Seus apóstolos, o mesmo que havia entre Ele e o Pai, já que Cristo era o apóstolo do Pai.
-Assim, ao falar da perseguição que sofreriam ao pregarem o Evangelho do reino, o Senhor diz que Seus discípulos não deveriam temer, porque tudo está sob o controle do Pai, ou seja, nada lhes faria dano, porque o Senhor os havia escolhido para prosseguirem o Seu ministério e, portanto, nada lhes aconteceria (Mt.10:29).
-O Senhor também os ensina que o Filho é o mediador entre o Pai e os homens, tanto que quem confessar o Filho, o Filho o confessará diante do Pai, bem como quem O negar será negado pelo Filho diante do Pai (Mt.10:32,33).
-Temos aqui bem definido que o único mediador entre Deus e os homens é Jesus Cristo homem (I Tm.2:5). Não há intermediários, “atravessadores” na relação entre Deus e a humanidade. Ela é feita por Jesus Cristo homem, que é, também, o Filho.
-Quem crê em Jesus, alcança a salvação e a vida eterna, vai construir um relacionamento com a Divindade, que o levará à unidade hoje existente entre as Pessoas Divinas (Jo.17:22-25).
-Recentemente, aliás, surgiu um alvoroço dentro da Igreja Católica Apostólica Romana, após a edição de uma nota doutrinal que sepultou a possibilidade de haver um “quinto dogma mariano”, que seria a declaração de Maria, como “Corredentora”.
OBS: A Igreja Romana possui quatro dogmas marianos, todos equivocados e sem respaldo bíblico, a saber: a maternidade divina de Maria, a virgindade perpétua de Maria, a imaculada conceição de Maria, ou seja, sua concepção sem pecado e, por fim, a assunção de Maria, ou seja, que Maria teria subido aos céus e lá está na companhia de Jesus.
-Neste debate entre os romanistas, discute-se, precisamente, o significado da mediação de Cristo entre Deus e os homens, mediação que é total e ilimitada, ao contrário dos romanistas, que estão a debater a sua limitação, abrindo espaço para Maria e os ditos “santos” em tal tarefa.
-A mediação de Cristo é plena e quem se envergonhar do Senhor ou de suas palavras, o Filho também dele se envergonhará e o envergonhado sofrerá a vergonha eterna, pois, ao assim agir, revela pertencer a uma geração adúltera e pecadora (Mc.8:38; Lc.9:26; Dn.12:2).
-Quando os discípulos retornam triunfantes desta experiência evangelizadora, o Senhor como que confirma e conclui o ensino dado sobre o seu papel e o do Pai, fazendo uma oração pública em que agradece ao Pai, chamando-O de “Senhor do céu e da terra”, por ter ocultado aos grandes e entendidos os mistérios e tê-los revelado aos pequeninos, como também reiterando que tudo havia sido entregue ao Filho e que ninguém poderia conhecer o Pai se o Filho não o quiser revelar (Mt.10:25-27).
-Exatamente o mesmo se dá no outro “estágio de evangelismo”, este, agora, mencionado por Lucas, onde não mais doze, mas setenta discípulos são enviados para pregar o Evangelho do reino. Aqui também Jesus fará considerações a respeito de Seu papel mediador, quando ora agradecendo o êxito alcançado por eles (Lc.10:21,22).
-Chegamos, então, à célebre declaração de Cesareia, onde a identidade de Cristo é revelada aos Seus discípulos diretamente pelo Pai, por meio da revelação dada a Pedro.
-Jesus leva Seus discípulos a Cesareia de Filipe, um nicho idólatra na terra de Israel, onde, inclusive, estavam os dois templos dedicados a ambos os imperadores romanos até então existentes, César Augusto (Lc.2:1) e Tibério (Lc.3:1), e lá lhes pergunta quem dizem os homens serem o Filho do homem e, depois, indaga o que os próprios discípulos achavam ser ele.
-Pedro, então, diz que Jesus era o Cristo, o Filho do Deus vivo e o Senhor diz que esta resposta havia sido uma revelação do Pai a Pedro. Bem se vê, portanto, que o próprio Pai chama a Jesus de Filho (Mt.16:13-17).
-Assim que revelado pelo Pai como o Filho, o Senhor Jesus confirma, uma vez mais, a Sua condição de apóstolo e sumo sacerdote da nossa confissão, não só revelando que haveria de edificar a Igreja, como também que haveria de padecer e morrer pela humanidade (Mt.16:18-21).
-A confissão de Pedro, verdadeira revelação do Pai, mostra-nos, uma vez mais, a distinção entre Pai e Filho e bem explica a “eterna geração”, porquanto Jesus é identificado como o Cristo, ou seja, o Messias, o Ungido, Aquele que foi escolhido e separado para uma determinada tarefa, e, como tal, é o Filho do Deus vivo, ou seja, a tarefa O faz Filho.
-Ao ensinar quem é o maior no reino dos céus, Jesus diz que, para entrarmos nele precisamos ser humildes como uma criança e que os anjos sempre veem a face do Seu Pai que está nos céus (Mt.18:10) e que não quer que nenhum dos pequeninos se perca (Mt.18:14), mais uma vez reforçando a ideia de que a Pessoa Divina do Pai jamais deixou os céus, tendo determinado a descida, primeiro do Filho, e depois, do Espírito Santo.
-Ao falar sobre o perdão, Cristo também faz questão de chamar o Pai de “Pai celestial”, em mais um reforço
desta ideia. A Pessoa do Pai envia as demais, mas não é enviado por nenhuma outra.
-Em resposta ao pedido da mãe dos filhos de Zebedeu para que eles se assentassem à direita e à esquerda do trono de Jesus, o Senhor disse que quem determina as posições no reino é o Pai, é Ele quem prepara isto (Mt.20:23), em mais uma evidência de que o papel do Pai é de planejador.
-Neste papel é que entendemos porque o Filho não sabia o dia nem a hora de Sua vinda (Mt.24:36; Mc.13:32), porquanto incumbe ao Pai o planejamento e ao Filho a execução, não sendo parte do todo a ser revelado pelo Filho aos homens o que é preparado ainda antes da fundação do mundo, o que é segredo e mistério, tanto que é o Pai quem revela ao homem o propósito eterno da salvação, feito antes da fundação do mundo (Gn.3:15), como também é o Pai quem revela a identidade do Filho para que este, então, revele o mistério da Igreja (Mt.16:17,18; Ef.3:5,6).
-Também bem compreendemos porque é o Pai quem preparou a herança reservada aos salvos desde antes da fundação do mundo (Mt.25:34).
-Na agonia do Getsêmane, notamos bem o papel reservado ao Pai, o do planejamento e preparação. Jesus roga para que Lhe fosse afastado o cálice. Seria Jesus quem deveria tomar o cálice, mas o plano de que assim se faria era iniciativa do Pai, por isso roga o Filho ao Pai para que o cálice fosse afastado (Mt.26:39,42; Mc.14:36).
-Este papel planejador do Pai é evidenciado também no fato de o Senhor Jesus afirmar que é o Pai que atende ao pedido feito pelos homens para terem o Espírito Santo (Lc.11:13), bem por isso o revestimento de poder é chamado por Cristo de “a promessa do Pai” (Lc.24:49).
-Outra evidência deste papel planejador se verifica no fato de ter sido o Pai quem resolveu nos dar o reino (Lc.12:32), algo que porém seria concretizado pelo Filho (Lc.22:29,30).
II – O PAI ENVIOU O FILHO
-Será, porém, no Evangelho segundo João, precisamente o que trata da deidade de Jesus como seu tema central (Jo.20:31), que teremos a mais profunda revelação a respeito do relacionamento entre o Pai e o Filho.
-Logo no seu introito, este Evangelho afirma que Jesus é o Verbo, enquanto Verbo é Deus, mas que este Verbo Se fez carne e habitou entre nós, sendo o Unigênito do Pai, cheio de graça e de verdade (Jo.1:14).
-Ao ser apresentado como Unigênito do Pai, mostra-se que a Sua geração é única, ou seja, nenhum outro ser pode ser dito “gerado do Pai” no mesmo sentido que o Verbo, que, por ser “Unigênito do Pai”, é, “ipso facto”, Filho.
-Temos, aqui, a ideia da “geração por inteligência”, que, em nada, tira a deidade de Jesus, porquanto Ele é
dito ser detentor de glória, e só Deus tem a glória e não a dá a ninguém (Is.42:8).
-Como se isto não bastasse, é dito que o “Unigênito do Pai” é cheio de graça e de verdade, ou seja, n’Ele é plena, completa a graça e a verdade. Só em Deus temos a plenitude da graça e da verdade. Deus é a verdade (Jr.10:10) e só n’Ele a graça é plena, pois a plenitude da graça é companheira da glória (Sl.84:11).
-Logo em seguida, o Evangelho nos mostra que o Filho unigênito estava no seio do Pai e o Pai O fez conhecer (Jo.1:18).
-Temos aqui a razão de ser do envio do Filho pelo Pai. Deus queria Se fazer conhecido do homem, queria revelar-Se ao homem e, para tanto, tendo Se utilizado, primeiramente, dos profetas, Seus mensageiros (Hb.1:1), culminou a Sua revelação por meio d’Ele próprio, tendo sido escolhida a Pessoa do Verbo, que é o “executor” na Santíssima Trindade, para vir a este mundo e Se mostrar aos homens, e, como homem, sendo “a expressa imagem de Deus” (Hb.1:3), também mostrar aos homens o Pai (Jo.12:45; 14:8-11).
-O envio do Filho está, pois, ligado, à própria revelação de Deus ao homem, pois o Filho, ao sair do seio do Pai e vir a este mundo, revelaria não apenas a Si mesmo, mas também tanto ao Pai quanto ao Espírito Santo.
-O que havia sido planejado antes da fundação do mundo (Ef.1:4; I Pe.1:20; Ap.13:8; 17:8), foi manifestado,
“na plenitude dos tempos”, quando o Verbo Se fez carne, nascido de mulher, nascido sob a lei (Gl.4:4).
-Não é, pois, nenhuma coincidência que a Santíssima Trindade seja explícita e completamente revelada precisamente no batismo de Jesus no rio Jordão, que é o início do ministério público de Nosso Senhor e Salvador, pois foi para isto que Ele foi enviado: para revelar, manifestar Deus aos homens de modo pleno e cabal.
-Por 35 vezes no Evangelho segundo João, consoante a Versão Almeida e Revista Corrigida, será dito que o Pai enviou o Filho.
-Ante esta realidade é que se entende, por exemplo, porque Jesus diz à mulher samaritana que havia chegado a hora em que os verdadeiros adoradores adorariam ao Pai em espírito e em verdade, conforme a vontade do Pai (Jo.4:23,24).
-O envio do Filho manifestou Deus aos homens, permitiu a restauração da amizade entre Deus e os homens, já que o envio está umbilicalmente relacionado com o sacrifício perfeito que tirou o pecado do mundo (não nos esqueçamos: “o apóstolo e sumo sacerdote da nossa confissão”) e, deste modo, a adoração a Deus pode ser feita em espírito e em verdade, vez que o pecado foi tirado e restabelecida a comunhão entre Deus e os homens.
-Jesus foi enviado para ser o Salvador (I Jo.4:14). Por isso “em nenhum outro nome há salvação, porque também debaixo do céu nenhum outro nome há, dado entre os homens, pelo qual devamos ser salvos” (Jo.4:12).
-O envio do Filho mostra-nos que, enquanto o planejamento é da incumbência do Pai, a execução fica ao encargo do Filho. Há aqui uma perfeita unidade, pois aquilo que o Pai planeja, o Filho, executa.
-Por isso, Cristo diz que Seu Pai trabalha até agora e Ele, também (Jo.5:17), como também que o Filho nada pode fazer se o vir fazer o Pai, porque tudo quanto um faz, o outro faz igualmente (Jo.5:19) e o Filho não busca senão a vontade do Pai (Jo.5:30).
-Esta unidade de propósitos e de ações, ações que começam como planos, planos que, na dimensão divina, já são efetivos desde o limiar (Fp.2:13), tem como norte o amor do Pai pelo Filho (Jo.3:35;5:20).
-Este amor do Pai pelo Filho fez com que o Filho recebesse em Suas mãos todas as coisas (Jo.3:35), como também Lhe mostrou tudo quanto faz (Jo.5:20).
-Daí porque ter tido Jesus domínio completo sobre a vida, pois isto decorre desta entrega feita pelo Pai (Jo.5:21) e o maior milagre de Jesus, a ressurreição de Lázaro, confirma esta circunstância (Jo.11:1-45), como também o fato de não ter havido imediato julgamento da humanidade após a obra salvífica de Cristo no Calvário, porque o Pai a ninguém julga, mas entregou o juízo ao Filho, que edificou a Igreja (Mt.16:18) para que proclame o Evangelho (Mc.16:15) e venham aos homens os tempos de refrigério pela presença de Deus até os tempos da restauração de tudo, com a implantação da era messiânica já profetizada (At.3:19-21). O Filho não veio para condenar o mundo, mas para salvá-lo (Jo.3:17).
-Esta circunstância de que o julgamento será feito pelo Filho, em absoluto, porém, representa uma privação do Pai. Se é verdade que o julgamento será efetuado pelo Filho, que julgará os vivos e os mortos (II Tm.4:1; I Pe.4:5), este julgamento se dará conforme o que foi planejado pelo Pai, pois assim disse o Filho: “E, se, na verdade, julgo, Meu juízo é verdadeiro, porque não sou Eu só, mas Eu e o Pai, que me enviou.” (Jo.8:16).
-É preciso, pois, honrar o Filho, pois quem não honra o Filho, não honra o Pai que O enviou (Jo.5:23).
-Como se honra o Filho? Crendo no que Ele diz (Jo.5:24), em Suas palavras, pois as Suas palavras são as palavras de Deus, pois o Pai não deu o Espírito por medida ao Filho (Jo.3:34; 8:26).
-Quem assim crê, crê igualmente n’Aquele que enviou (Jo.5:24,37,38), pois tudo quanto é feito e falado pelo Filho é a vontade do Pai (Jo.4:34; 7:16; 12:49). Afinal de contas, a obra de Deus nada mais é que crer no Pai, Que enviou o Filho (Jo.6:29).
-As obras realizadas por Jesus são o testemunho de que Ele está em perfeita unidade com o Pai (Jo.5:36; 14:10,11).
-É bem por isso que o Filho é o “apóstolo do Pai”, porque foi enviado, mas não somente enviado, mas Se comporta como um verdadeiro “embaixador do Pai”, alguém que não tem vontade autônoma, mas faz tão somente aquilo que o Pai quer que seja feito, assim como um embaixador de um país não toma iniciativas próprias, mas faz aquilo que o governo que o mandou para o país estrangeiro determinar.
-Não nos olvidemos, aliás, de que o próprio Jesus disse que desceu do céu para fazer a vontade do Pai (Jo.6:38), Pai que quer que nenhum dos que creram no Filho se percam (Jo.6:39,40).
-O envio do Filho pelo Pai é algo dinâmico, não estático, ou seja, é algo que tem continuidade. Não se tratou de um envio do Filho, que deixou a glória que tinha com o Pai e veio à Terra (Jo.17:5), esvaziando-Se (Fp.2:7), passando a ficar solitário neste mundo, fazendo a vontade do Pai.
-Este envio não representou ruptura entre o Pai e o Filho, tanto que o Filho nunca foi deixado só (Jo.8:29; 16:32), mas mantida foi a comunhão existente entre essas Pessoas Divinas, tanto que o Filho diz que vivia pelo Pai (Jo.6:57).
-A vida, portanto, é esta comunhão entre Deus e o homem. O Filho, feito homem, não perdeu a comunhão com o Pai, assim como, uma vez crendo em Jesus e nascendo de novo, não podemos perder a comunhão com Cristo (Jo.6:57).
-A única ocasião em que se deu o rompimento desta relação entre o Pai e o Filho foi o instante em que o pecado da humanidade caiu sobre o Senhor Jesus, quando Ele Se fez pecado por nós (II Co.5:21), quando, então, o Filho exclamou na cruz o Salmo 22, fazendo ecoar o desamparo que sentia (Sl.22:1; Mt.27:46; Mc.15:34), momento em que as trevas tomaram conta da Terra (Mt.27:45; Mc.15:33; Lc.23:44).
-Cristo vivia pelo Pai e diz que devemos também viver pelo Filho e isto se dá quando d’Ele nos alimentamos, ou seja, quando estamos em comunhão com o Senhor, dialogando sempre com Ele por meio da oração e da meditação nas Escrituras e de uma vida de santificação contínua e sempre crescente (Jo.6:57).
-A participação na ceia do Senhor, que é a declaração de que estamos em comunhão com o Senhor Jesus, não é a alimentação propriamente dita, como ensinam, por exemplo, os romanistas, mas a demonstração de que estamos alimentados, uma declaração diante de Deus, da Igreja e dos homens em geral de que estamos em comunhão com o Senhor.
-O Filho vivia pelo Pai porque sempre fazia o que O agradava (Jo.8:29) e viveremos pelo Filho se fizermos o que O agrada. O apóstolo Paulo diz que só se pode ser servo de Cristo se se agradar a Cristo e não aos homens (Gl.1:10).
-Somente podermos efetivamente ser considerados discípulos de Cristo e, por conseguinte, filhos de Deus, se vivermos por Cristo, se não mais vivamos, mas Cristo viver em nós (Gl.2:20).
-Caso não vivermos por Cristo neste mundo, se o amor de Deus não se revelar em nós, o que ocorre quando produzimos o fruto do Espírito (Gl.5:22), seremos uma frustração, um engano, uma farsa, um “falso irmão” (II Co.5:26; Gl.2:4), um “joio” a ser arrancado da lavoura de Deus, pois “nisto se manifestou a caridade de Deus para conosco: que Deus enviou Seu Filho Unigênito ao mundo, para que por Ele vivamos” (I Jo.4:9).
-Portanto, se não vivemos por Cristo, não temos o amor de Deus manifestado em nós e, portanto, não somos pessoas salvas. Os verdadeiros discípulos são aqueles que dão muitos frutos, glorificando ao Pai , permanecendo no Seu amor (Jo.15:8-10).
-Ao sempre agradar o Pai e fazer a vontade d’Ele, o Filho demonstra o amor que tem pelo Pai, como também
promove a glorificação do Pai (Jo.14:31; 17:4). O Filho buscava a glória do Pai (Jo.7:18; 8:50)
-É neste sentido, aliás, que se fala em “subordinação” do Filho, como, por exemplo, a Declaração de Fé das Assembleias de Deus.
Não é inferioridade, mas exercício do papel. O executor tem de cumprir o planejamento. O próprio Jesus o diz: “Na verdade, na verdade vos digo que não é o servo maior do que o seu senhor, nem o enviado, maior do que aquele que o enviou” (Jo.13:16).
-Exatamente por isso é que o Senhor Jesus afirmou que o Pai era maior do que Ele (Jo.14:28), expressão que é muito invocada por aqueles que negam a Trindade.
-Por primeiro, cumpre observar que o contexto nos mostra que Jesus estava a dizer que ia para o Pai, ou seja, atingiria a glorificação e, como Deus e homem, iria para os céus. Evidentemente que, ao dizer que o Pai era maior do que Ele, estava a dizer da condição então existente, do Verbo encarnado e sem o uso da glória divina.
-Por segundo, o papel de enviado gera uma subordinação funcional em relação ao enviador. O enviado tem de seguir o “script” traçado pelo que envia. Afinal de conta, nosso Deus é não é Deus de confusão (I Co.14:33).
-“… Quando o Senhor Jesus disse: ‘o Pai é maior do que Eu’ (Jo.14:28) — pois Ele fez-Se servo [Fp´.2:6,7] como consequência da encarnação — não quis dizer, com essa declaração, que Se tornou, em substância, menor que o Pai, e sim que Se subordinou funcionalmente à vontade do Pai:
‘porque não busco a Minha vontade, mas a vontade do Pai, que Me enviou’ (Jo.5:30); ‘porque desci do céu não para fazer a Minha vontade, mas a vontade d’Aquele que Me enviou’ (Jo.6:38); ‘Então, disse: Eis aqui venho, para fazer, ó Deus, a Tua vontade’ (Hb.10:9).
A submissão do Filho foi uma condição voluntária para o Seu messiado: ‘também o mesmo Filho Se sujeitará Àquele que todas as coisas Lhe sujeitou, para que Deus seja tudo em todos’ (I Co.15:28). Isso não compromete a deidade absoluta do Filho: ‘porque n’Ele habita corporalmente toda a plenitude da divindade’ (Cl.2:9), nem a igualdade de essência e substância das três Pessoas da Trindade.” (DFAD, 2.ed., II.1, pp.40-1).
-Não se pode, assim, quem se diga salvo e desconsidera este relacionamento entre o Pai e o Filho, negando um ou o outro. Para se receber o Pai, é preciso que se receba o Filho, pois o Filho é quem faz o Pai conhecido; para se receber o Filho, é indispensável que se receba o Pai, pois o Pai é quem enviou o Filho e foi por Este glorificado (Jo.13:20; 14:24).
-Tanto assim é que o Senhor Jesus disse que a perseguição aos cristãos se daria porque as pessoas não conheceriam o Pai (Jo.15:20,21; 16:3).
-A propósito, pois, temos aqui a justificativa teológica porque tanto judeus quanto muçulmanos, que dizem servir ao mesmo Deus dos cristãos, sempre foram grandes perseguidores dos cristãos. Fazem-no porque não conhecem o Pai, negam que o Deus a quem dizem servir seja o Pai de Nosso Senhor e Salvador Jesus Cristo.
-Por isso, o Senhor Jesus nomeia estes perseguidores de “sinagoga de Satanás” (Ap.2:9; 3:9), porque, na verdade, não estão servindo ao único e verdadeiro Deus, como alegam, mas, sim, ao inimigo de nossas almas, uma vez que estão a negar tanto o Pai quanto o Filho, pois quem aborrece um, aborrece também o outro (Jo.15:23,24).
-É esta, aliás, a tônica da “religião universal”, que já está se consolidando neste tempo imediatamente anterior ao arrebatamento da Igreja, guiada pelo “espírito do Anticristo” (I Jo.4:3), pois o Anticristo é, precisamente, aquele que nega tanto o Pai quanto o Filho (I Jo.2:22).
– Não é surpresa que esta religião, que dominará o mundo durante a Grande Tribulação, sob o comando do Falso Profeta, fará de todos adoradores de Satanás e do Anticristo (Ap.13:4,12-17).
Pr. Caramuru Afonso Francisco
Fonte: https://www.portalebd.org.br/classes/adultos/12056-licao-3-o-pai-enviou-o-filho-i


